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Conheça as associadas - 2 noticias

Que permaneça presente

Dr. Pedro Kassab era, acima de tudo, um homem extremamente gentil. Mesmo conhecendo de forma superficial seu currículum, tive a oportunidade e a sorte de encontrá-lo para uma entrevista que seria publicada no Portal da APF (Associação Paulista de Fundações). Passei com ele, no Liceu Pasteur, em São Paulo, uma tarde daquelas em que a gente sente que é possível viver em sociedade, que a solidariedade e a ética são, sim, palpáveis. Tendo sido seu falecimento no dia 15 de setembro de 2009, o Portal da APF faz questão de deixar no ar a entrevista abaixo, para que seus pensamentos e ensinamentos permaneçam presentes.

Entrevista realizada em 2008

O Papel da APF na Sociedade

O médico e professor Dr. Pedro Salomão José Kassab sabe exatamente o papel que as fundações podem exercer no desenvolvimento social do Brasil. Sua dedicação permanente, para multiplicar esforços e disseminar valores éticos e solidários, o compromete com o envolvimento de várias tarefas e, atualmente, além do cargo de diretor-geral do Liceu Pasteur (que ocupa há 50 anos), é presidente do Conselho Estadual de Educação. Dr. Kassab participa ainda do Conselho do Hospital do Câncer, da Fundação Educacional Inaciana (FEI), do Conselho de Ética do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (CONAR), órgão ao qual está ligado desde a criação, em 1980, como representante de consumidores, entre outras atividades não menos importantes.

Formado pela USP em 1953, o pai do atual prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, foi presidente da Associação Médica Brasileira (AMB) por seis mandatos e foi, ainda, presidente da Associação Médica Mundial.

Na APF, ele ocupa o cargo de vice-presidente e participa da administração da entidade desde março de 2004. Sua integridade, sabedoria e cultura proporcionam uma contribuição efetiva no desenvolvimento e crescimento da APF, enquanto associação que tem como uma de suas missões fortalecer o movimento fundacional brasileiro.

Em sua sala no Liceu Pasteur, Dr. Kassab conversou com a reportagem do Portal da APF, relembrou como foi o início do seu relacionamento com a entidade, falou sobre fundações públicas e privadas e apontou a educação como o principal e mais importante caminho transformador da sociedade.

Como o senhor se envolveu com a administração da APF?

Há cerca de quatro anos, eu já tinha ouvido falar que uma entidade havia sido criada para associar as fundações. Mas não fora convidado para conhecê-la. Foi então, que Dona Dora (Dora Silvia Cunha Bueno, presidente da APF desde 2004), me apresentou a associação. Eu sugeri ao Conselho da Fundação Liceu Pasteur sua filiação à APF e a sugestão foi aceita. Houve uma assembléia, com a presença de poucas pessoas, em que Dona Dora se dispôs a candidatar-se à presidência. Outra pessoa que se candidatou a participar da diretoria foi o professor Feijão, de Campinas (João Paulo Feijão Teixeira, atual vice-presidente da APF) e não havia mais ninguém, faltavam membros. Dona Dora pediu minha participação e eu, a princípio, recusei, pois outras atividades preenchiam e preenchem todo meu tempo. Mas, ao sentir que a proposta dela era realmente de fortalecer a entidade e fazê-la mais representativa, assumi o cargo de Diretor Administrativo Financeiro, com a ressalva de que o faria até que fosse encontrada outra pessoa para ocupar tal função. E o tempo foi se passando, os resultados foram aparecendo e estou na diretoria da APF até hoje, com outras atribuições.

Qual era a posição da APF naquele momento, quando o senhor conheceu a entidade?

Senti que faltava presença e, portanto, representatividade à entidade. A maioria das fundações que iniciaram a APF era relacionada com entidades públicas e havia necessidade de se conseguir mais associadas. Além disso, era preciso mais união e mais ação. No final de 2003, eram menos de 20 fundações associadas e, hoje, já chegamos ao número de 60.

O senhor falou sobre fundações públicas. Qual é a diferença entre fundações públicas e fundações privadas?

Minha opinião já é conhecida: eu não acredito na conveniência dessa distinção. Em meu entendimento, toda fundação deveria ser entendida com entidade privada, que tem o interesse difuso na sociedade e, conseqüentemente, significa responsabilidade do Estado. Por isso deve ter sua atividade e gestão apresentadas ao Ministério Público. É isso que lhes garante a representatividade e a idoneidade. Eu não concordo que uma fundação caracterizada como pública não passe por esse velamento. Como essas entidades prestam contas diretamente aos Tribunais de Contas, isso pode dar brechas a questionamentos de sua natureza fundacional.

Mas então, a APF foi conseguindo angariar mais associadas e a ter mais representação dentro do movimento fundacional e na sociedade como um todo. Qual vem sendo o fator determinante para isso?

A APF não tinha uma sede. Tudo funcionava de forma improvisada. Não havia recursos. Havia também dificuldade nas questões administrativas em função do tempo em que a entidade permaneceu praticamente inativa. Mas já durante o ano de 2004, conseguiu-se locar uma sede e montou-se uma estrutura de trabalho. Muitos apoios foram essenciais para isso, em especial da Fundação de Rotarianos de São Paulo, que autorizou doação mensal para ajudar no custeio das despesas. Foi então, que nasceu a idéia de realizar-se um encontro de fundações. Pareceu-nos que já havia acontecido uma reunião entre as fundações, mas queríamos um encontro mais amplo. Discutimos muito como fazer. E o resultado desse 1º Encontro Paulista de Fundações, realizado em 2005, sintetizado na “1ª Carta de São Paulo”, foi bastante conceitual, embora já apresentasse a forma que a APF estava tomando. Isso foi essencial e se mostrou eficiente para dar certa animação ao processo de filiação de mais outras fundações e uma forma de angariar fundos para a entidade, que possui poucos recursos financeiros. Mas não tenho dúvida de que o principal fator do crescimento da APF é a capacidade de aglutinação de Dona Dora. Trata-se de pessoa que se dedica totalmente. Sua eleição recente para a presidência da Confederação Brasileira de Fundações (CEBRAF) era previsível. Foi um transbordamento do seu trabalho em São Paulo.

Na sua avaliação, a APF já tem seu papel definido na sociedade?

Isso vem em crescente escala. As cartas de São Paulo, resultantes do 1º e 2º Encontros Paulistas de Fundações foram basicamente conceituais, sendo que a 2ª Carta foi também bastante voltada para a gestão. Mas na 3ª Carta, aprovada pelo plenário do 3º Encontro Paulista, realizado em setembro de 2007, passou-se a cobrar respostas do Governo. Foram cobranças pertinentes ao momento em que o Governo havia criado um dispositivo legal para a instituição de “fundações estatais”. Afinal, qual o motivo para o Governo não confiar missões às fundações já existentes? Além disso, a Carta solicitou averiguação, pelo Governo, dos recursos públicos que são destinados às várias instituições do chamado Terceiro Setor. Já começamos a ter reflexos desses questionamentos.

Mas o senhor vê com otimismo o momento por que passa o Brasil no assunto instituições sociais ou Terceiro Setor?

Lamentavelmente, vejo com pessimismo no curto prazo. Não podemos permitir brechas que caracterizem as instituições como entidades que possam transgredir as leis ou possibilitar desvio de verbas. Mas minha natureza não é pessimista, por isso, acredito que seja uma necessidade encontrar uma saída para o problema. E isso não pode ser resultado de governos que impõem regras de forma ditatorial. A História mostra que isso não dá certo. As fundações, associações, sociedades sem fins lucrativos compõem conjunto que pode representar uma parcela enorme da produção nacional. Isso tem que ser levado em conta. Mas ainda não vejo nenhuma disposição política para resolver isso. Li uma notícia recente, informando que os beneficiários do programa Bolsa Família estão pior neste ano do que no ano passado, o que não me surpreende. Esse programa, espertíssimo, oferece bom resultado eleitoral. As pessoas aceitam o benefício e ficam gratas e, para elas, isso basta. Outro exemplo são os discursos de muitos políticos que, em campanha, dizem sempre que suas prioridades são saúde e educação. Isso é o que todo mundo quer ouvir e é claramente insuficiente. Eu não aceito. Digo que a educação não é simplesmente uma prioridade, mas sim merecedora de axiomática precedência. A educação tem que preceder tudo. Assim, a APF tem que se manifestar e tem que exigir respostas.


Raquel Mattos
Editora - APF