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Mediação do Terceiro Setor entre sociedade e governo

O Brasil está vivendo um momento importante e ao mesmo tempo inquietante de mobilização popular.

Simultaneamente ao justo clamor suprapartidário e ordeiro por melhorias na saúde, ensino, transportes e outros serviços públicos, bem como pela redução da criminalidade e corrupção, verificam-se radicalismos anacrônicos em relação à nossa estrutura institucional.

Não se aceitam mais os saques, depredações, violência, interrupção de vias e invasões de propriedades privadas ou do Estado como forma de expressão de um povo livre.

Esse tipo de ação não cabe no contexto civilizatório e é desnecessário, pois a grande virtude da democracia é o dever dos governantes de ouvir as reivindicações da sociedade e as atender na medida do possível e da gestão responsável.

Percebemos que, de modo rápido, os poderes Executivo e Legislativo, nos municípios, estados e União, prontificaram-se a receber lideranças dos movimentos, e adotar providências, como a anulação do reajuste das tarifas de transportes em São Paulo, a aprovação do projeto que destina os royalties do petróleo à saúde e educação e a reforma política.

É importante traduzir à opinião pública que essas medidas respondem às principais reivindicações das ruas: os royalties do petróleo garantirão, paulatinamente, recursos para saúde e educação em patamares que talvez jamais tenhamos alcançado.

E a reforma política poderá mitigar algumas das principais causas da corrupção, em especial as ligadas ao financiamento das campanhas eleitorais, às votações no Parlamento e ao fisiologismo às vezes presente nas brechas da infidelidade partidária.

Esses exemplos demonstram o quanto estão sendo exitosas as manifestações populares e, ao mesmo tempo, o quanto é inaceitável a baderna como forma de expressão do povo. Evidenciam, ainda, ser preciso ampliar a interlocução da sociedade com o governo, de modo que fique mais clara a importante relação de causa-efeito entre o clamor popular e a ação dos poderes constituídos.

Nesse processo interativo, configura-se um espaço a ser cada vez mais ocupado pelas fundações e entidade do Terceiro Setor em geral. Conhecedoras profundas das demandas sociais, educacionais, de saúde, culturais e de assistência em múltiplos segmentos mais carentes, essas instituições também desfrutam de canais fluidos e capacidade de diálogo com o governo.

Assim, sua atuação torna-se mais importante neste momento em que é fundamental ordenar de modo mais claro e organizado o clamor das ruas perante as instâncias municipais, estaduais e federal dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Estamos diante de um momento muito rico de avanço de nossas instituições. Não devemos desperdiçá-lo, como se fosse uma ruptura da democracia nascida na campanha das "Diretas Já", em 1984, e sacramentada na Constituição de 1988.

Nesse processo, o Terceiro Setor tem missão crucial, o que torna ainda mais relevantes os seus colóquios e oportunidades de diálogo e análise, como o 8º Encontro Paulista de Fundações (13 de setembro, em São Paulo), em cuja pauta as manifestações em curso no país terão ênfase.

Sem dúvida, às fundações e entidades do Terceiro Setor, cujo papel já tem sido expressivo na busca de soluções para o progresso socioeconômico, cabe especial missão neste momento de múltiplas reivindicações da população: atuarem como captadoras dos anseios dos segmentos em que atuam e mediarem sua interação com o poder público.


Dora Sílvia Cunha Bueno
Presidente da Associação Paulista de Fundações (APF) e da Confederação Brasileira de Fundações (CEBRAF).