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FUNDAÇÃO ABRINQ - Covid-19: saiba como a variante Delta pode afetar as crianças e os adolescentes

not 29 09 2021 1

Detectada pela primeira vez na Índia, em outubro de 2020, a mutação do vírus SARS-CoV-2 (causador da Covid-19), conhecida como variante Delta, já foi registrada em mais de 130 países, conforme divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em julho deste ano. Ela é considerada uma variante preocupante por ser mais transmissível do que as anteriores, o que a faz mais contagiosa do que a cepa original.

A rápida disseminação da nova variante da doença, em tempos de flexibilização das medidas de isolamento social em diversos países e no Brasil, é motivo de preocupação para muitos pais em relação aos seus filhos, principalmente no retorno às aulas presenciais na maioria das escolas e os riscos que isso pode trazer a milhares de crianças e adolescentes ainda não vacinados.

Para tirar as principais dúvidas e falar sobre os sintomas e riscos da variante Delta em relação ao público infantojuvenil, a Fundação Abrinq conversou com a Dra. Tânia Petraglia, pediatra e secretária do departamento científico de imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria.

A variante delta é mais transmissível que a cepa original? Houve aumento dos índices de internações de crianças e adolescentes com o surgimento desta nova variante?

A variante Delta possui uma transmissibilidade muito maior. Uma pessoa infectada transmite para cinco pessoas. Este é o grande problema. Se comparada com a cepa original, a taxa de transmissão ia de uma pessoa infectada para duas. Quando a transmissibilidade é maior, ela atinge os mais suscetíveis para doenças.

Por esta razão, registramos o aumento de casos em crianças e adolescentes. Em 2020, tivemos 16.624 casos de síndrome respiratória aguda grave, que é uma complicação da Covid-19 e leva à internação. Neste ano, até a primeira semana de setembro, foram registrados 14.638 casos, em crianças e adolescentes.

Em termos de óbitos, no ano passado, foram 1.213 óbitos, na faixa etária de crianças e adolescentes. Em 2021, até o início de setembro, já temos registrados 1.203 óbitos.

Há uma tendência a um aumento de casos neste ano. Isso se deve, provavelmente, porque estamos com a vacinação avançando no país e o vírus acaba se deslocando para as faixas etárias que não foram vacinadas, ou que receberam apenas uma dose, ou que não possuem o esquema vacinal completo, ou estão vacinadas inadequadamente. É preciso ressaltar que nenhuma vacina é 100% eficaz. Uma pessoa pode ser vacinada e pode contrair a doença.

Quais os principais sintomas desta variante observados em crianças e adolescentes?

Os sintomas mais frequentes desta nova variante são: dor de garganta, nariz entupido, obstrução nasal. Em grande parte, são sintomas levíssimos que, às vezes, nem se percebe que se tem a doença, o paciente acha que é uma rinite, uma alergia e pode apresentar diarreia também.

Lógico que existem os quadros graves. Não podemos esquecer que é uma doença imunoprevenível e que é responsável, hoje, pela maioria dos óbitos na faixa etária entre crianças e adolescentes.

As crianças têm formas mais assintomáticas e leves. Adolescentes apresentam sintomas semelhantes aos de adultos jovens. Há uma diferença muito grande: o adolescente consegue referir estes sinais e sintomas com muito mais clareza do que uma criança.

Em razão da criança ter mais dificuldade em identificar os sinais e sintomas da doença, quando na maioria das vezes eles são leves ou quase não existem, é que os pais devem estar atentos, não devem menosprezar qualquer sintoma respiratório em uma criança e atribuir a uma alergia ou a qualquer outra virose.

É importante manter a criança em casa, em isolamento e não levar à escola. É muito importante ter isto em mente.

A criança pode sentir uma dor ou incômodo, mas não dizer nada. Os pais devem dar atenção a qualquer alteração e não levar a criança doente para a escola por conta do risco de transmissão às outras crianças. Algumas crianças possuem problemas de saúde. Eu mesma, tenho vários pacientes transplantados que frequentam a escola.

A vacinação dos adultos protege indiretamente este público? De que forma é importante?

Se há um aumento da proteção dos que estão em volta, por meio da vacinação, há uma diminuição do risco de contaminação para os não vacinados. Mas, como essa variante é altamente transmissível e, mesmo uma pessoa vacinada pode infectar-se de forma leve, é importante vacinar os adolescentes. Alguns municípios que estão mais avançados na vacinação, podem fazer isso.

A vacinação é indicada para crianças e adolescentes?

A Sociedade Brasileira de Pediatria apoia a vacinação de adolescentes a partir de 12 anos. Por ora, a única vacina autorizada no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para indivíduos de 12 a 18 anos é a da Pfizer/BioNtech. Já para as crianças abaixo desta idade, não é indicada a vacinação pois, no momento, não há vacinas para elas.

É importante mantermos as medidas preventivas de acordo com as determinações de cada município.

Estamos caminhando para uma normalização no Brasil?

Sou otimista. Acredito que, com o avanço da vacinação, a diminuição dos casos graves, dos óbitos, caminharemos para uma normalização que já vem ocorrendo paulatinamente. Esta flexibilização já está sendo vivida na Europa [uso de máscaras só em locais fechados, transportes públicos]. Tenho a certeza de que a gente vai partir para um patamar de flexibilização cada vez maior. O país já avançou muito na questão da vacinação. Temos uma perspectiva para 2022 melhor do que tivemos em 2020 e 2021. O próximo ano será decisivo em relação a como vamos proceder para a manutenção dessa segurança e do controle da pandemia. Creio que, para 2022 teremos mais um reforço na vacinação e, para 2023, ainda há o que se avaliar.

Fonte: Fundação Abrinq