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FUNDAÇÃO JULITA - Kevin fez da educação a arma para desenhar sua história

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Quem conhece Kevin da Silva Martins, um jovem de 25 anos, imediatamente fica impressionado com sua maturidade. Sem titubear e com espontaneidade ele explica o motivo: “Minhas fraquezas e as vulnerabilidades da minha família são as minhas forças.”

Inquieto e estimulado por sua mãe, Kevin sempre soube que poderia escrever a sua história, que poderia escolher um caminho diferente do traçado por seu avô, pai e tio. Embora na comunidade onde nasceu a ideia de fazer uma faculdade parecesse algo muito distante, sua mãe sempre exigiu dos três filhos que completassem o ensino médio. E Kevin não parou por aí: ele viu na educação a ponte que poderia levá-lo a seu novo caminho.

Com 14 anos queria começar a trabalhar e apostou na educação para ajudá-lo a conseguir um emprego como jovem aprendiz. “Conheci a Julita no desespero. Eu estava angustiado, pensei em fazer um curso profissionalizante, mas no primeiro que tentei não passei na seleção”, diz.

Kevin jovem negro do curso profissionalizante na Fundação JulitaFoi procurando no Google que ele encontrou a Fundação Julita, que estava com vagas abertas. “Nasci no Jardim São Luís e não conhecia a Julita, não sabia que existia este paraíso tão perto da comunidade”, diz.

Kevin foi aceito e escolheu fazer o curso profissionalizante de confeitaria, hoje chamado de gestão de alimentos.

Aprendeu a cozinhar, fazer sobremesas, adquiriu noções de conceitos do mundo corporativo e a usar os programas Word e Excel. Mas, muito mais que isso, começou a se conhecer.

“Eu lembro de uma dinâmica que fizemos onde cada um ia falando das suas experiências de infância, quantos livros lemos, quais viagens fizemos, nossas experiências de trabalho e várias outras coisas,” diz ele. “Cada resposta positiva significava um passo à frente. Eu fiquei entre os últimos e tinha um cara lá na frente. Me senti mal, um lixo. Depois pediram para virarmos de costas e quando eu vi, eu estava na frente. Ali eu percebi que eu era muito e não importava o que eu tinha tido até aquele momento, mas sim as minhas possibilidades. Eu chorei.”.

Foi neste curso profissionalizante que as portas se abriram para Kevin, em várias direções.. Nas rodas de discussão, ele começou a se aceitar como gay e descobriu o que viria a ser sua futura profissão. “Eu nunca tinha ouvido falar na psicologia, sempre quis muito fazer gastronomia, mas a partir daquele primeiro contato, me apaixonei e comecei a pesquisar e ler muito sobre o assunto”.

Quando completou o ensino médio, em 2013, ainda não sabia direito o que fazer. Ficou dividido entre o amor antigo pela gastronomia e a nova paixão pela psicologia. A segunda ganhou e, em 2015, ele entrou na FMU. Não conseguiu dar continuidade ao curso por falta de dinheiro trancou a matrícula e quase desistiu, mas novamente encontrou força interna e apoio da Julita para continuar.
“Uma coisa que aprendi na Julita é que nós da comunidade podemos estar onde quisermos, todos os lugares são nossos lugares.”

Em 2018 voltou para a faculdade de psicologia na FMU e irá concluí-la neste ano de 2022.

Mas o caminho para o bacharelado não foi uma linha reta. Entre as várias portas que se abriram após o curso profissionalizante na Julita, além do seu autoconhecimento, conseguiu o emprego de jovem aprendiz que desejava. Foi trabalhar em uma empresa de geotecnologia com a ajuda do Núcleo de Aprendizagem Profissional e Assistência Social (Nurap), parceiro da Julita. E em 2013 recebeu um telefonema de sua educadora, Maria Helena, para convidá-lo a participar do processo seletivo da Honda. Foi selecionado e ficou lá até início de 2015, quando voltou para a Fundação Julita, desta vez como funcionário.

Começou como office boy e após nove meses foi promovido à auxiliar administrativo, no RH, onde passou a ter um salário melhor e cada vez mais tarefas. Nesta época fez um curso de RH, oferecido pela Escola Técnica Estadual (Etec) Centro Paula de Souza, mais uma vez apostando na educação para avançar. “Aprendi tudo na Julita, a experiência lá me ajudou tanto profissionalmente como na minha descoberta, de quem sou. Só saí porque eu queria saber melhor quem eu era. Eu precisava de um desafio novo”, diz.

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A trajetória na Julita lhe ensinou muito, mas ficava a dúvida se não estava seguindo o caminho da ação social apenas por ser uma zona de conforto. No dia seguinte ao que completou quatro anos de trabalho na Julita pediu demissão para ter uma experiência em uma grande empresa do segmento imobiliário, a Cyrela. Foram quase dois anos de muito aprendizado e muito sofrimento por sentir que não era o que desejava. Pediu demissão em meio à pandemia de Covid e voltou para a Julita, como voluntário.

Neste momento estava nascendo uma startup chamada Aki Posso+ com o objetivo de fazer conexão entre pessoas em situação de vulnerabilidade -- que precisam de alimentos, emprego, saúde e educação -- com empresas que oferecem estes serviços gratuitamente ou a custo social. Parceira da Fundação Julita, a startup começou com um carácter assistencial para socorrer pessoas que precisavam de cestas básicas no pior momento da pandemia, mas não se restringiu e tem feito um esforço para ser vista como uma oportunidade para que mais pessoas, como Kevin, possam desenhar seus futuros.

Kevin foi convidado para trabalhar na startup. “Deu até um medinho, pensar que eu ia fazer parte de uma empresa que estava começando, com um objetivo tão bacana. É muita responsabilidade.” Kevin não só aceitou mais este desafio como fala com o maior orgulho da empresa onde trabalha. “Percebi que o que me faz feliz é estar voltado para ações sociais.”

Por este motivo, mesmo saindo da casa da mãe e da comunidade onde nasceu, decidiu continuar morando no Jardim São Luís, onde acredita que poderá estimular outros jovens a estudar e, como ele, saírem da situação de vulnerabilidade de suas famílias. Kevin aprendeu cedo o que não queria para sua vida com a experiência de seu pai, avó e tio, que tiveram suas vidas interrompidas pelo crime. Agora, tornou-se um exemplo positivo de como a educação pode fazer a diferença. “As pessoas acham que quem mora nas comunidades não pode ser educado, ter informação, ler livros..., isso é uma mentira”, afirma tirando um livro da prateleira: “Este livro, por exemplo, me ensinou muito”, diz, mostrando o livro “A coragem de ser imperfeito”, de Brené Brown.

Um episódio aparentemente simples mostra que o exemplo de Kevin já começa a irradiar e repercutir nas comunidades da periferia. Na passagem de 2021 para 2022, Kevin foi convidado para a festa de Ano Novo na casa de uma amiga de sua amiga, na comunidade de Pirajuçara. Quando chegou e foi apresentado às pessoas da casa foi recebido calorosamente: “Você é o famoso Kevin, minha vó fala que quer que eu seja como você”, disse um jovem. “Você tem uma trajetória incrível,” disse outro. E assim foram se sucedendo os elogios até que Kevin desabou a chorar.

kevin, jovem negro com cabelo black power sorri para a camêra“Eu não aguentei, foi muito emocionante para mim, saber que eu era admirado por pessoas que nem eram da minha comunidade, foi demais. Isso reforçou a minha certeza de que quero contribuir para que outros jovens possam sonhar e concretizar seus sonhos como eu.”

No final de 2022, Kevin termina o curso de psicologia na FMU. Este será um ano de estágio na faculdade onde poderá clinicar e fazer atendimento para pessoas carentes, com acompanhamento. Como usará o diploma para ampliar sua ação social ele ainda não sabe direito, o que importa, por enquanto, é que está muito feliz no trabalho atual.

E nada de ansiedade: “Eu sempre digo para os meus amigos: respira. Nós da comunidade sempre nos cobramos muito. Ninguém precisa ser perfeito”.

Quando perguntado sobre o impacto que a Fundação Julita teve na sua trajetória, ele responde instantaneamente: “Pedir para eu falar sobre o papel da Julita na minha vida é marmelada”, diz com um sorriso lindo de menino sapeca no rosto. “A Julita é tudo para mim, me forjou”.

Texto: Teresa Navarro - jornalista e voluntária na Fundação Julita

Fonte: Fundação Julita