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FUNDAÇÃO JOSÉ LUIZ SETÚBAL - Diagnósticos de alta complexidade em gastroenterologia pediátrica: o que os pais precisam saber
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- Criado em 24/04/2026

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Quando o intestino da criança pede atenção especializada
O que são diagnósticos de alta complexidade em gastroenterologia pediátrica e por que o acompanhamento integrado muda o curso do tratamento
Dor de barriga em criança é tão comum que muitos pais já nem levam muito a sério no começo. Mas, quando a dor volta toda semana, quando a criança para de ganhar peso, quando o cansaço é constante ou quando surgem crises de diarreia que não respondem a nenhum tratamento simples, a história muda de figura.
Esses podem ser sinais de condições que vão além de um problema digestivo passageiro e que exigem uma avaliação cuidadosa por um gastroenterologista pediátrico — o médico especializado no sistema digestivo de crianças e adolescentes.
A gastroenterologia pediátrica abrange desde queixas rotineiras até condições mais sérias, que os especialistas chamam de alta complexidade. Esse termo não significa, necessariamente, que a situação é grave ou irreversível — significa que o diagnóstico exige mais etapas para ser confirmado, que o tratamento envolve mais de uma área de conhecimento e que o acompanhamento precisa ser contínuo e estruturado. Reconhecer esses casos cedo faz diferença real no desenvolvimento e na qualidade de vida da criança.
O que diferencia um caso de alta complexidade em gastroenterologia pediátrica
Na rotina pediátrica, boa parte dos problemas digestivos tem solução direta: um ajuste na alimentação, um curto ciclo de medicamento, orientações para os pais. Alta complexidade é quando esses cuidados não bastam.
São condições em que a causa não é óbvia, os sintomas se sobrepõem a outras doenças, os exames comuns não são suficientes para fechar o diagnóstico ou o tratamento precisa ser ajustado ao longo do tempo porque a doença tem fases de melhora e piora.
Outro aspecto central dessas condições é que elas raramente ficam restritas ao intestino. Uma criança com doença inflamatória intestinal pode ter comprometimento no crescimento, anemia e alterações nas articulações ao mesmo tempo. Uma criança com doença celíaca não tratada pode desenvolver problemas de aprendizagem por deficiência de vitaminas. Isso explica por que o cuidado precisa envolver, além do gastroenterologista pediátrico, profissionais como nutricionista, psicólogo e, em muitos casos, outros especialistas da pediatria.
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a gastroenterologia pediátrica trata desde alterações simples até condições crônicas de origem autoimune, metabólica ou genética. O ponto de virada que define alta complexidade está justamente na necessidade de investigação aprofundada, acompanhamento longitudinal e abordagem de múltiplas frentes.
Conheça as condições que mais exigem atenção
Entre as condições de alta complexidade mais frequentes na gastroenterologia pediátrica, quatro merecem atenção especial de pais e cuidadores: a doença celíaca, a doença inflamatória intestinal (que inclui a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa), a esofagite eosinofílica e os distúrbios da interação intestino-cérebro.
A doença celíaca é uma resposta autoimune ao glúten — proteína presente no trigo, centeio e cevada — que causa inflamação e lesão no intestino delgado. Conforme informações da Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, estima-se que 1 em cada 100 pessoas seja afetada no mundo, mas apenas cerca de 30% são diagnosticadas corretamente. No Brasil, a Federação Nacional das Associações de Celíacos (Fenacelbra) estima que haja aproximadamente 2 milhões de celíacos no país, com a grande maioria ainda sem diagnóstico. Em crianças, a doença compromete principalmente aquelas entre 6 meses e 5 anos, segundo o Ministério da Saúde, embora possa se manifestar em qualquer fase da infância e na adolescência. O único tratamento eficaz é a exclusão permanente do glúten da dieta, como orienta a SBP.
A doença inflamatória intestinal (DII) agrupa condições crônicas autoimunes que causam inflamação persistente no trato gastrointestinal. A Doença de Crohn pode afetar qualquer parte do tubo digestivo, enquanto a retocolite ulcerativa se concentra no intestino grosso e no reto. Conforme publicado pelo DII Brasil, cerca de 25% dos diagnósticos ocorrem antes dos 18 anos, com incidência estimada de 7 a 10 casos por 100 mil adultos. Em crianças, a doença tende a ser mais extensa e grave do que nos adultos. A prevalência dessas condições está em ascensão no Brasil — a Universidade Federal de Juiz de Fora aponta um crescimento de 15% ao ano nos registros nacionais.
A esofagite eosinofílica (EoE) é uma doença crônica do esôfago em que células do sistema imune — os eosinófilos — se acumulam na mucosa e causam inflamação. Sua prevalência vem crescendo de forma expressiva nas últimas décadas. Conforme dados reunidos pelo Fleury Medicina e Saúde, uma metanálise recente aponta incidência de 6,6 casos por 100 mil por ano e prevalência de 34 por 100 mil em crianças. A condição está fortemente ligada a doenças atópicas, como asma e rinite alérgica, e os sintomas variam bastante conforme a idade.
Por fim, os distúrbios da interação intestino-cérebro (DGBI) — antes chamados de distúrbios funcionais gastrointestinais — são condições em que o funcionamento do sistema digestivo está alterado sem que haja lesão estrutural visível. Incluem condições como síndrome do intestino irritável, dor abdominal funcional e dispepsia funcional em crianças. Conforme debatido no Congresso Mundial de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (WCPGHAN 2024), realizado em Buenos Aires, esses distúrbios são diagnosticados por critérios específicos que consideram a complexa interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais — uma mudança importante em relação à visão anterior, que os tratava como condições puramente psicológicas.
Por que essas condições surgem?
Não há uma causa única para nenhuma dessas doenças. A maioria resulta da combinação entre predisposição genética e fatores ambientais que o sistema imunológico interpreta de forma inadequada. Na doença celíaca, por exemplo, a herança genética é indispensável — mas o gatilho que faz a doença se manifestar pode ser um episódio infeccioso, uma mudança na dieta ou algo que ainda não está totalmente esclarecido pela ciência. Como explica a SBP, cerca de 30% das pessoas com a genética para a doença celíaca jamais a desenvolverão ao longo da vida.
No caso da doença inflamatória intestinal, a Brazilian Journal of Health Review (2025) aponta que a incidência está em ascensão, especialmente nos países em desenvolvimento, e associa esse aumento a fatores como mudanças na alimentação, uso excessivo de antibióticos, redução da exposição a microrganismos na infância (a chamada hipótese da higiene) e aumento da urbanização. Esses mesmos fatores parecem influenciar o aumento da esofagite eosinofílica, que também compartilha mecanismos com as alergias alimentares e respiratórias.
Para os distúrbios da interação intestino-cérebro, o caminho é mais complexo: o estresse, a ansiedade e eventos emocionais significativos na vida da criança podem alterar a forma como o sistema nervoso entérico — a rede de neurônios que regula o intestino — funciona. Isso não significa que a dor da criança é imaginária ou que o problema é psicológico no sentido popular da palavra; significa que o intestino e o sistema nervoso central se comunicam de forma muito intensa, e essa comunicação pode ser perturbada por múltiplos fatores.
Como essas condições se manifestam?
Um dos maiores desafios das doenças gastrointestinais de alta complexidade é que os sintomas costumam ser inespecíficos — isto é, parecidos com os de outras condições muito mais simples. Dor abdominal recorrente, diarreia prolongada, fezes com sangue ou muco, vômitos frequentes e perda de apetite podem aparecer em diversas situações, o que frequentemente atrasa o diagnóstico correto.
Na doença celíaca, os sintomas em crianças pequenas incluem distensão abdominal, diarreia crônica com fezes de aparência gordurosa, irritabilidade e dificuldade para ganhar peso ou crescer. Em crianças maiores e adolescentes, a apresentação pode ser mais sutil: anemia que não responde ao tratamento com ferro, baixa estatura, fadiga persistente e até problemas de atenção, conforme orienta a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde.
Na doença inflamatória intestinal, um sinal que merece atenção especial nos casos pediátricos é o comprometimento do crescimento. Conforme descrito em publicação da Universidade Federal do Espírito Santo, a desaceleração da curva de crescimento pode ser o primeiro sinal da doença, aparecendo antes mesmo dos sintomas gastrointestinais. Essa perda de velocidade de crescimento é observada em 10% a 20% dos pacientes pediátricos com Doença de Crohn. Outros sinais são diarreia com sangue, dor abdominal intensa e febre recorrente sem causa aparente.
Na esofagite eosinofílica, os sintomas mudam com a faixa etária. Em bebês e crianças pequenas, o quadro se parece com refluxo: recusa alimentar, vômitos e irritabilidade. Em crianças em idade escolar e adolescentes, o sintoma mais característico é a dificuldade para engolir alimentos sólidos — uma sensação de que a comida fica parada no meio do caminho. Adolescentes com esofagite eosinofílica às vezes são diagnosticados erroneamente com transtornos alimentares, exatamente por evitarem certos alimentos por medo dos sintomas, conforme alerta estudo.
Como é feito o diagnóstico?
Para as doenças gastrointestinais de alta complexidade, o diagnóstico raramente chega em uma única consulta. Ele é construído a partir de camadas de informação: histórico clínico detalhado, exame físico, exames laboratoriais e, em muitos casos, procedimentos como endoscopia com coleta de biópsias.
Na doença celíaca, o caminho começa pela sorologia — especialmente a dosagem do anticorpo anti-transglutaminase tecidual IgA. Se o resultado for positivo, a etapa seguinte é a biópsia do intestino delgado por endoscopia digestiva alta, que permite confirmar as alterações na mucosa intestinal. Em junho de 2025, o Ministério da Saúde publicou atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença celíaca no SUS, conforme informado pela Fenacelbra, o que representa um avanço importante para a padronização do diagnóstico e acesso ao tratamento no país.
Na doença inflamatória intestinal, o diagnóstico exige endoscopia digestiva alta e ileocolonoscopia com biópsias, além de exames de imagem como enterografia por ressonância magnética ou ultrassonografia intestinal. Exames de sangue como proteína C reativa e hemograma completo, além da calprotectina fecal, ajudam a avaliar o nível de inflamação antes e durante o tratamento.
Na esofagite eosinofílica, o diagnóstico só pode ser confirmado pela biópsia do esôfago coletada durante endoscopia — que identifica a presença de pelo menos 15 eosinófilos por campo de grande aumento no tecido esofágico. Esse critério histológico é indispensável: o esôfago pode parecer normal na endoscopia e ainda assim apresentar inflamação significativa ao microscópio, o que reforça a importância da coleta de biópsias mesmo quando a imagem parece dentro do esperado.
Caminhos de tratamento
O tratamento dessas condições depende do diagnóstico específico, da faixa etária e da gravidade do quadro. Na doença celíaca, a dieta sem glúten ao longo de toda a vida é o único tratamento eficaz — e qualquer quantidade de glúten, por menor que seja, pode reativar a resposta imunológica. Isso exige acompanhamento com nutricionista para garantir a substituição adequada dos alimentos e prevenir deficiências nutricionais que surgem com a restrição.
Na doença inflamatória intestinal pediátrica, o tratamento visa induzir a remissão dos sintomas e mantê-la ao longo do tempo. Para a Doença de Crohn, a nutrição enteral exclusiva (uso de fórmulas nutricionais específicas por sonda ou via oral) é recomendada como primeira linha de tratamento em crianças, pois, além de controlar a inflamação, favorece o crescimento e a cicatrização da mucosa intestinal. Quando esse recurso não é suficiente, entram imunossupressores e medicamentos como infliximabe e adalimumabe. Casos refratários a todas as tentativas clínicas podem precisar de intervenção cirúrgica.
Na esofagite eosinofílica, o tratamento se organiza em três frentes: uso de medicamentos (especialmente corticosteroides tópicos deglutidos), manejo dietético com exclusão dos alimentos desencadeantes e, em casos de estreitamento do esôfago por fibrose, dilatação endoscópica. A exclusão alimentar pode ser feita por testes de alergia ou por dietas de eliminação empíricas — estratégias com diferentes graus de restrição e efetividade, que precisam ser individualizadas.
O impacto na vida e rotina familiar
Uma condição crônica na infância não afeta apenas o corpo — ela reorganiza a rotina familiar, interfere na escola e pode gerar impacto emocional tanto na criança quanto nos cuidadores. Crianças com doença inflamatória intestinal, por exemplo, enfrentam períodos de crise que podem resultar em internações, faltas à escola e restrições nas atividades físicas. Uma revisão integrativa publicada no Caderno Pedagógico (2025), que analisou estudos de 2020 a 2025, identificou alta prevalência de ansiedade, depressão e isolamento social em pacientes com DII, dados que se aplicam também às famílias devido ao peso do cuidado sem suporte.
A dieta sem glúten na doença celíaca, por sua vez, exige adaptações que vão além do prato: cardápio escolar, aniversários, viagens, alimentação em restaurantes — tudo precisa ser pensado com cuidado para evitar contaminação cruzada. Para adolescentes, especialmente, essa restrição pode se tornar fonte de constrangimento social e dificultar a adesão ao tratamento.
Nos distúrbios da interação intestino-cérebro, o impacto emocional muitas vezes precede ou amplifica os sintomas físicos. Crianças que vivem em ambiente de alta pressão escolar ou que passaram por situações estressantes podem ter crises de dor abdominal funcionalmente ligadas a esses contextos. O suporte psicológico, nesse cenário, é parte central do tratamento.
Quando procurar atendimento imediato
Existem situações que pedem avaliação médica sem demora. No contexto das doenças gastrointestinais de alta complexidade, alguns sinais merecem atenção urgente:
- Sangramento intestinal expressivo: fezes muito escuras (que podem indicar sangramento no trato digestivo alto) ou com sangue vivo em grande volume;
- Dor abdominal intensa e súbita: especialmente se acompanhada de febre alta e rigidez do abdômen, pois pode indicar complicações como obstrução ou perfuração intestinal;
- Ingestão de glúten acidental por pacientes celíacos: pode iniciar crises com vômitos, diarreia intensa e dor abdominal significativa;
- Impactação alimentar em casos de esofagite eosinofílica: quando um pedaço de alimento fica preso no esôfago e a criança não consegue engolir nem a própria saliva.
Atendimento integrado: o cuidado que faz diferença
Nenhuma dessas condições se resolve com um único especialista ou uma única consulta. O que a literatura científica e a experiência clínica mostram é que o manejo dessas doenças na infância exige continuidade: reavaliar o crescimento, ajustar o tratamento conforme a fase da doença, monitorar o estado nutricional e atender os desdobramentos emocionais que aparecem ao longo do tempo.
O Sabará Hospital Infantil, referência nacional e internacional em saúde infantojuvenil, estrutura o atendimento em gastroenterologia pediátrica de alta complexidade com equipes que incluem gastroenterologistas pediátricos, nutricionistas, psicólogos e outros especialistas que atuam de forma coordenada. Isso significa que, em vez de a família precisar correr entre vários serviços sem que um saiba o que o outro está fazendo, o cuidado é planejado em conjunto — levando em conta não só os exames e medicamentos, mas também o impacto da doença na rotina escolar, no sono e no desenvolvimento emocional da criança.
Esse modelo de atenção é especialmente relevante nos casos pediátricos, porque a doença crônica na infância afeta um organismo que ainda está crescendo e se desenvolvendo. Identificar e tratar precocemente condições como doença celíaca, DII ou esofagite eosinofílica pode evitar sequelas no crescimento, preservar a qualidade de vida escolar e social da criança e dar às famílias as ferramentas concretas para lidar com o dia a dia do tratamento.
Se a criança ou adolescente que você cuida apresenta sintomas digestivos recorrentes que não melhoram com tratamentos simples, ou se já existe um diagnóstico gastrointestinal que precisa de acompanhamento especializado, o Sabará tem equipe disponível para uma avaliação detalhada.
Agende uma consulta com a equipe de gastroenterologia pediátrica do Sabará pela central de atendimento online no site do hospital. O primeiro passo é uma consulta com o especialista — a partir daí, o time define, junto à família, quais os caminhos mais adequados para aquela criança.
Fonte: Fundação José Luiz Setúbal

