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Captação de Recursos junto à iniciativa privada

not 28 09 2017 4Iniciativa privada

A fonte mais acessada no mundo todo. A que tem maior número de doadores e maiores valores aportados para diversos projetos, empreendedores sociais e OSCs. O que difere o hemisfério norte do sul, com raras exceções, é que no norte são as pessoas (indivíduos) que doam percentualmente mais e, no sul, são as empresas.

Segundo estimativa da coordenadora da área de responsabilidade social do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, Anna Maria Medeiros Peliano, em entrevista de 2010[1], o mercado de doações de empresas para ações sociais no Brasil estaria além de R$ 8,5 bilhões em 2010.

O estudo do IPEA, realizado em 2004 com mais de 9.000 empresas, aponta que 69% dessas empresas realizaram, em caráter voluntário, alguma ação social ou doação, que variou de uma cesta básica a milhões de reais (PELIANO, 2006). Outro dado importante é o estudo realizado, desde 2001, pelo GIFE - Grupo de Institutos Fundações e Empresas que aponta em 2014 as doações dos 113 associados, dentre os maiores grupos empresariais, o volume total investido alcançou a ordem de R$ 3 bilhões, num crescimento real de 18,44% entre os anos de 2009 e 2014[2], cerca de 17% dos aportes com a utilização de incentivos fiscais – R$ 510 milhões.

Portanto, a fonte empresa ainda é muito importante no Brasil com quase R$ 9 bilhões aportados, sendo R$ 2,5 bilhões com incentivo fiscal[3] e R$ 6,4 bilhões sem incentivo fiscal, correspondendo a cerca de 24% do mercado de doações em 2012 / 2014. Para acessar essa fonte deve-se entender que existem vários tipos de empresas e que sua forma de abordagem também é diferente. Pode-se segmentá-las pela origem do capital (nacional, multinacional), pela região geográfica em que atuam, pelo tamanho (faturamento ou número de empregados), pela presença ou não de uma área ou política de responsabilidade social. Também é necessário verificar como a empresa divulga a concessão de recursos, se por meio de edital para a escolha de projetos, se tem projetos próprios ou institutos, bem como se OSC e empreendedores sociais interessados podem entrar em contato direto, ou seja, não bastam bons projetos, relacionamentos ou bater na porta. Esta fonte exige intensa pesquisa prévia.

Já pessoas físicas ou indivíduos, em sua maioria, doam valores pequenos de forma regular ou esporádica. Além de valores monetários, essas pessoas doam seu tempo fazendo parte do corpo diretivo das organizações ou colaborando em suas atividades. Também a doação de serviços profissionais, tais como, fotógrafo, design e outros é uma forma frequente de doação. Meyer; Pascucci; Murphy (2012), em seu artigo discutem um projeto com a participação de voluntários em hospitais de Curitiba, citam existir três ganhos utilizando esta fonte, quais sejam: redução de custo, melhora da imagem da organização e atendimento social e psicológico para o beneficiário. Para acessar esta fonte, ou seja, pessoas físicas ou indivíduos, as ferramentas, táticas e formas ocorrem pelo telemarketing, mala direta, cara a cara (na rua ou em visitas pré-agendadas), eventos, anúncios em TV, rádio e revistas. Já médios e grandes doadores, apesar de poucos, são importantes para muitas organizações e exigem visitas pessoais.

Estudo do World Giving Index 2015[4] aponta que apenas 20% dos brasileiros fazem alguma doação, o que coloca o País na 105ª posição entre 144 países do mundo, porém a mais nova pesquisa no Brasil, divulgada em junho de 2016, liderada pelo IDIS – Instituto para o desenvolvimento do investimento social[5] mostrou que em 2015, 77% dos brasileiros fizeram algum tipo de doação, sendo que 62% doaram bens, 52% doaram dinheiro e 34% doaram seu tempo para algum trabalho voluntário. No ano de 2015, as doações individuais dos brasileiros totalizaram R$ 13,7 bilhões, valor que corresponde a 0,23% do PIB do Brasil.

Esses resultados integram o mais completo estudo já feito no país sobre o perfil do doador brasileiro. O levantamento, encomendado ao Instituto Gallup, entrevistou 2.230 pessoas em todo país, com 18 anos ou mais, residentes em áreas urbanas e com renda familiar mensal a partir de um salário mínimo.

Conclui-se que a fonte pessoas físicas está em curva ascendente no Brasil e já soma cerca de um terço das doações. Nos EUA, esta é a principal fonte, atingindo quatro em cinco doações ou 80% do valor total doado, quando somado com legados[6].

Michel Freller empreendedor social, palestrante, professor, consultor e facilitador. Mestre em Administração pela PUC-SP, atua junto as OSCs com ênfase em planejamento e mobilização de recursos com e sem incentivos. Fundador da Criando Consultoria ltda.

Referências

BRASIL, Demonstrativo dos gastos tributários Estimativas bases efetivas – 2010: Série 2008 a 2012. Brasilia, Ministério da Fazenda, Receita Federal, 2013.
CRUZ, Celia Meirelles; ESTRAVIZ, Marcelo. Captação de diferentes recursos para organizações sem fins lucrativos. São Paulo: Instituto Fonte e Global, 2000.
GIFE: Grupo de institutos e fundações e empresas. Censo GIFE 2014.
Disponível em: < www.gife.issuelab.org/resource/censo_gife_2014>
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSITICA (IBGE). As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil, 2010. Rio de Janeiro: IBGE, 2012.
INSTITUTO PARA O DESENVOLVIMENTO DO INVESTIMENTO SOCIAL (IDIS). The World Giving Index 2015. Disponível em: http://www.cafamerica.org/wp-content/uploads/1755A_WGI2015_Report_WEB_V2_FINAL.pdf.
_____. Pesquisa doação Brasil. 2016
Disponível em: http://idis.org.br/idis-divulga-resultados-da-pesquisa-doacao-brasil/
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). A iniciativa privada e o espírito público: um retrato da ação social das empresas no Brasil. Brasília: IPEA, 2006.
MENDONÇA, Patricia Maria E. (coord). Pesquisa arquitetura institucional de apoio às organizações da sociedade civil no Brasil: Apresentação e resumo executivo São Paulo: Articulação D# - Diálogos, Direitos e Democracia e CEAPG – Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da ESASP – FGV, fevereiro de 2013. Disponível em: .
MEYER Junior Victor; PASCUCCI Lucilaine; MURPHY, J. Patrick. Volunteer in Brazil hospitals: good citizens or strategic agents? published online 24/01/2012. International society for third sector research and the John’s Hopkins University. Disponível em:
NOVAES, Regina. Hábitos de doar: motivações pessoais e as múltiplas versões do “espírito da dádiva”. In: BRITO, M.; MELO, M.E.(orgs.). Hábitos de doar e captar recursos no Brasil, São Paulo: Peirópolis, p. 17–56, 2007.
PELIANO, A. M. M. (coord). A iniciativa privada e o espírito publico: A evolução da ação social das empresas privadas no Brasil. Brasilia: IPEA 2006. Disponível em: .
PEREZ, L. Mobilização de indivíduos: é preciso pedir. Filantropia, São Paulo, v. 41, 2009. 

[1] Disponível em: www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=2678&Itemid=75
[2] Disponível em: www.gife.issuelab.org/resource/censo_gife_2014
[3] Disponível em: www.receita.fazenda.gov.br/publico/estudotributario/BensTributarios/2010/DGTEfetivoAC2010Serie2008a2012.pdf
[4] http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/brasil-fica-fora-do-top-100-de-paises-mais-solidarios
[5] http://idis.org.br/idis-divulga-resultados-da-pesquisa-doacao-brasil/
[6] http://givingusa.org/see-the-numbers-giving-usa-2016-infographic/

Fonte: Captamos