Outras Notícias

Negócios sociais estruturam mercados que não existem em áreas pobres

Estamos acostumados a pensar que há mercado para tudo nas sociedades capitalistas. Dos produtos supostamente supérfluos, como aulas de violão ou viagens ao Nepal, aos essenciais, como água, tudo pode ser comprado ou vendido numa sociedade como a nossa. Mas a que preço?

Na verdade, em comunidades de baixa renda, muitos mercados simplesmente não existem por não estarem estruturados ou funcionam de forma improvisada, com organização deficiente –apesar das necessidades prementes.

De fato, em áreas pobres, existem jovens que gostariam de fazer um curso de Inglês, mas ele não cabe no bolso. A TV a cabo pode estar presente, mas a distribuição é clandestina. E muitos vão recorrer ao "gato" para acessar serviços de energia.

Dificuldades desse tipo estarão quase sempre presentes quando falarmos de serviços essenciais, como saúde, habitação, educação, saneamento e produtos financeiros.

not 24 10 2017 1
Vivenda leva reforma de baixo custo para favelas de São Paulo, como a casa de Antonio da Silva

Para encarar esse problema, diferentes atores simplesmente assumem a tese de que apenas o Estado é capaz de prover serviços para os mais pobres. Na prática, isso nem sempre ocorre, ou, quando acontece, será de maneira incompleta, com uma oferta limitada e, não raro, de pior qualidade.

Basta pensar no déficit habitacional de 7 milhões de lares ou nos 14 milhões de famílias cujas moradias precisam de reformas urgentes. O mercado "formiguinha" da construção civil acaba atendendo essa demanda de forma precária e improvisada, sem que as políticas públicas existentes consigam atender à enorme necessidade existente.

Nesse sentido, a proposta mais original do campo dos negócios de impacto é a criação e a estruturação de mercados que não existem, de forma a atender a necessidades reais e urgentes. Este é, por exemplo, o caso do Programa Vivenda, vencedor do Prêmio Empreendedor Social de Futuro 2015.

A empresa se propõe a vender kits de reforma de cômodos, com planejamento da obra, acabamento adequado, execução em seis dias, gestão de todo o processo e parcelamento do valor para que caiba no bolso das famílias.

Ao desenvolver esse modelo, eles criaram algo que não existia antes: ninguém comprava e vendia dessa forma, e as famílias necessitadas se viravam como podiam, com soluções improvisadas, não raro gerando desperdício e levando a acidentes e custos elevados no longo prazo.

Elegante, não? Seria maravilhoso se mais startups de impacto desenvolvessem alternativas semelhantes para atender aos vários tipos de necessidades que estão por aí. Porém, como encontrar soluções adequadas costuma levar tempo, os investidores acabam receosos de entrar em projetos desse tipo, o que aumenta o risco de insucesso.

Tudo isso significa que, para promover negócios com impacto social, precisaremos revisar os conceitos mais comuns do campo empreendedor no Brasil, incluindo aceleradoras, anjos e investidores.

Nada contra o estilo de empreendedorismo do campo de tecnologia, mas a realidade dos projetos que atendem às necessidades mais agudas da base da pirâmide fica, em geral, muito distante do glamour dos negócios do Vale do Silício, com as startups "unicórnio", que, com pouco mais de um ano de atuação,
podem atingir um valor de mercado de um bilhão de dólares.

Trabalhar em negócios de impacto significa reconhecer que estamos falando de campos de difícil atuação, com regulação precária, consumidores ariscos e pouquíssimos parceiros dispostos a correr os riscos necessários.

Para desbravar esses mercados, além de um imenso esforço para formação de alianças que agreguem energia na pavimentação dessas estradas, é preciso ir para o campo, pisar no barro, entender a realidade do cliente final e compreender que ninguém terá uma solução mágica pronta na cartola.

Mas –quando dão certo– os resultados de projetos desse gênero são fascinantes. Vamos encarar?

MARCO GORINI, economista, é cofundador da Din4mo, empresa especializada em apoiar negócios de impacto social e parceira do Prêmio Empreendedor Social.
Fonte: Folha