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Seis previsões para o futuro da filantropia familiar: dicas da Plenária de Abertura do Simpósio do 20º Aniversário da NCFP

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Como será o futuro da filantropia familiar? No Simpósio do 20º Aniversário do National Center for Family Philanthropy (NCFP), em São Francisco, nos Estados Unidos, dez especialistas tentaram responder a essa pergunta a partir do debate sobre tendências, previsões e desafios do campo.

Alexander “Zander” Grashow, do Good Wolf Group, foi o facilitador da discussão, que contou com executivos e filantropos familiares, investidores de impacto, especialistas em mudança social, líderes empresariais e representantes de organizações não governamentais que atuam em âmbito global. A conversa passou por temas que surgiram na iniciativa Imagining the Future (Imaginando o Futuro) da NCFP, realizada durante um ano, que reuniu alguns desses especialistas em grupos focais espalhados por todo o país. Se estiver correto o que previram os integrantes do painel, o futuro do investimento familiar será mais ou menos assim:

Financiadores colocarão mais em prática o seu discurso sobre raça, diversidade, equidade e inclusão

Os filantropos familiares estão dando mais atenção aos temas da diversidade, equidade e inclusão (D.E.I.). Contudo, ainda há muito o que fazer. Daryn Dodson, da Illumen Capital, diz: “O que mais me assusta é que a inclusão das mulheres e dos negros ainda não foram incorporadas. Por que é que, num país que se parece com o nosso, somente 1% dos recursos investidos pertencem a mulheres ou negros? Isso deixa em aberto um impacto inacreditável.”

Ebonie Johnson Cooper, fundador e diretor executivo do Instituto Young Black & Giving Back, afirma: “A questão que não me sai da cabeça é: como podemos fazer filantropia ‘com’ ao invés de ‘para’? A cara da filantropia costuma ser velha, branca e rica, enquanto muitos dos beneficiários não são. Se vocês quiserem diversificar o seu conselho e a sua equipe, e só diversificar o seu conselho e a sua equipe”, diz ela. “O treinamento que você recebe sobre equidade é ótimo para o seu próprio desenvolvimento pessoal, mas quem é que você tem como aliado e embaixador para ajudá-lo a fazer contato com o próximo membro do conselho? Não dá para culpar ninguém se a sua organização não muda, entra ano, sai ano, e continua tudo igual.”

Atuar em questões de raça, equidade, diversidade e inclusão requer um pouco mais do que passar um dia num treinamento de viés implícito, é preciso assumir um compromisso para a vida inteira. Mary Mountcastle, curadora da Fundação Mary Reynolds Babcock e da Fundação Z. Smith Reynolds afirma “Estou interessada em entender o que significa, para as pessoas brancas, liderar essa área, mas não controlá-la.”

Os financiadores vão se envolver com a comunidade – com transparência e autenticidade

Segundo Kate Roberts, co-fundadora do Coletivo Maverick: “Trabalhamos na África e na Índia. Percebemos que os doadores norte-americanos querem causar impacto, mas ficam desconcertados por estarem nesse lugar de privilegiados, brancos e ricos. Ao mesmo tempo, organizações de caridade e não-governamentais têm horror aos doadores. É um obstáculo imenso, que, inclusive, limita a transparência de ambos os lados. E isso está prejudicando o nosso impacto.”

Rick Williams, CEO da Fundação da Família Sobrato, diz que os financiadores da família podem mudar esse quadro. “A filantropia familiar é única, porque as famílias vêm de um lugar. Conhecemos a comunidade. Podemos ver e sentir que há gente sendo deixada para trás, gente sem voz. Sempre fomos catalisadores da mudança, e agora temos que reconstruir o tecido da comunidade. Isso requer estar presentes nas comunidades de forma autêntica.”

O que quer dizer “estar presentes de forma autêntica”, como parceiro de verdade de uma comunidade? Não existe cartilha para isso. É preciso trabalhar tanto ao lado dos financiadores, quanto ao lado dos beneficiários para ultrapassar a questão das relações de poder e profissionalismo. A autoconsciência e a escuta ativa são um bom começo.

Um outro ponto abordado no painel é a ideia de que contar histórias, sobre o que vai bem, o que vai mal e as confusões, também ajuda. “Contar histórias é uma coisa importante, e não sabemos fazer isso direito,” prossegue Kate Roberts. “Deveríamos divulgar os nossos fracassos tanto quanto explicamos nossos sucessos, e financiar organizações para que elas escrevam sobre o impacto que causam, os seus fracassos e os seus sucessos.” Se fizermos isso, vamos melhorar o aprendizado de todos, e vamos estimular um campo mais autêntico e mais aberto.

Vai haver mais investimento na organização da comunidade, advocacy e políticas públicas

Muitas fundações familiares evitam financiar iniciativas que possam parecer ou ter qualquer relação com lobby. Entretanto, em tempos de turbulência política como o que estamos vivendo, é hora de incrementar os investimentos em advocacy, dizem os debatedores. Além de atendimento direto, todo financiador precisa ter um portfólio de investimento que inclua organização e advocacy para defesa de direitos.

“Como o governo é sempre o principal prestador de serviços sociais, o melhor retorno para a filantropia será investir nas organizações de base comunitária,” diz o reverendo Starsky Wilson da Fundação Deaconess. “Em vez de financiar o ensino fundamental, considerem investir no grupo de mães que estão dispostas a ir até o governo para lutar pelo ensino fundamental. Elas serão melhores do que vocês, o tempo todo.”

É uma questão que vai além do dinheiro, continua ele. “Como é que se traz para a mesa algo mais do que simples recursos? É preciso articulação. É preciso reunir as pessoas. Para envolver a comunidade, faça perguntas: em que direção vocês querem ir e de que apoio você precisa para chegar lá? Nós, financiadores, estamos numa posição de fazer exatamente isso na comunidade.”

Vamos ver uma virada ainda maior na direção do investimento de impacto

A maioria dos financiadores estão felizes e orgulhosos como que estão fazendo com os 5% das suas políticas de gastos, mas em geral deixam de olhar para os outros 95%*, diz Zander Grashow.

Segundo Mary Mountcastle, “Muitos de nós temos uma política ou estamos num patamar de 5% a 6% de gastos. Não há meio termo. O que acontece com as fundações é que elas não devem crescer para sempre. Como poderemos gastar mais ou gastar mais com eficácia?”

Em 2004, a Fundação Mary Reynolds Babcock decidiu olhar para os outros 95% e se tornar uma investidora de impacto. Na época chamamos isso de ‘investimento guaiado pela missão’. A mensagem pode ter mudado um pouco, mas a intenção permanece a mesma.

“Começamos direcionando 10% dos recursos a investimento em negócios de impacto em organizações conhecidas. Deu tão certo que agora vamos destinar 50 milhões de dólares para investimentos em negócios de impacto,” diz Rick Williams. As fundações familiares, segundo ele, estão numa posição perfeita para realizar iniciativas pilotos e experimentar coisas novas. “Precisamos usar nosso orçamento de doações (grantmaking), nossas equipes, poder de comunicação e recursos dos nossos fundos patromoniais (endowments)– tudo que temos! – para melhorar as nossas comunidades.”

Vamos assumir mais riscos e gerar mais inovação

Julie Packard, trustee da Fundação David & Lucile Packard, diz: “O que o governo e as grandes instituições não financiam são os estágios iniciais da inovação. Se não continuarmos a inovar, não seremos capazes de escalonar as soluções para os problemas.” A filantropia familiar, diz Kate Roberts, pode e deve assumir riscos – porque os governos não irão. Às vezes a solução é simples e basta que os financiadores familiares se juntem para co-investir em algo, para daí arregaçarem as mangas. “Todo esse pessoal das fundações pode assumir riscos, porque, na verdade, quem é que vai nos criticar? É importante colocar o nosso trabalho com a postura de que podemos assumir riscos.”

Questões e conflitos familiares ficarão do lado de fora da organização

Muitas famílias usam a fundação familiar como local para resolver questões da família, mas dizem que isso é algo que precisa mudar. “A fundação não é o lugar para resolver os problemas da família”, diz o Reverendo Wilson.

Há quem respeitosamente discorde. Amy Hart Clyne, da Family Office Exchange, diz que sim e, embora esse pudesse ser o ideal, a maioria das famílias que ela conhece na verdade utilizam a sua participação na filantropia familiar para resolver suas “questões” . Todos sabemos que é verdade: a dinâmica das famílias aflora – e extravasa – na sala do Conselho. Na melhor das hipóteses, as famílias e os indivíduos conseguem lidar (ou amenizar) os seus problemas de forma que não interfira na eficácia da fundação.

Será, então, que o futuro vai encontrar mais indivíduos e famílias evoluídas que consigam contornar o drama familiar? Segundo o Reverendo Wilson, é disso que precisamos. A nossa comunidade só tem a perder. “Como é que chegamos ao ponto de conseguirmos curar comunidades? Primeiro, precisamos fazer o nosso trabalho, trabalho de indivíduo e de família,” diz ele. “Temos certo grau de fé na nossa missão, e nas comunidades que atendemos. Não conseguimos ouvir a angústia da comunidade enquanto não tivermos lidado com a nossa própria angústia.”

“Embora tenhamos muito acesso à riqueza, todos temos carências psicológicas e emocionais. Precisamos estar inteiros para darmos conta deste trabalho.” Estar inteiro parece bom, por ora e para o futuro. Afinal, segundo Kate Roberts, “são as pessoas que criam a mudança, não é só o dinheiro.”

Nota do Editor: Veja as nossas tabelas gráficas desta plenária e de outras aqui.

Sobre a autora:

Elaine Gast Fawcett escreve sobre filantropia e conteúdo estratégico e tem contado histórias de pessoas desde a quinta série, quando escreveu o primeiro boletim de notícias da sua classe. Nos últimos 15 anos ela tem trabalhado para fortalecer o setor filantrópico ajudando filantropos a compartilhar histórias, ferramentas e práticas que contribuem na promoção de sua missão. Elaine entrevistou mais de 1000 filantropos, empresários e líderes sem fim lucrativos e publicou vários livros, kits de ferramentas, artigos e relatórios para fundações, associações sem fins lucrativos e de grantmakers (incluindo a NCFP).*

*Estes percentuais se referem ao endowments (fundos patrimoniais) das fundações. Nos EUA a grande maioria de fundações possui um fundo patrimonial e algumas fundações têm experimentado investir parte deste recurso em negócios de impacto social ao invés de manter o total de seus fundos no mercado financeiro tradicional.

Texto traduzido retirado do site do National Center for Family Philanthropy (NCFP). A matéria original está disponível aqui.

Fonte: Gife