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Voluntários movimentam os programas - Com a limitação do contato físico, colaboradores ajudam com soluções digitais e arrecadação

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Kalil Farran, diretor executivo do Instituto Camargo Corrêa: “Essas ações já beneficiaram cerca de 12.000 pessoas das localidades onde atuamos” — Foto: Divulgação


Por Marília de Camargo Cesar 

Grandes empresas, com programas organizados de voluntariado, viram o interesse dos colaboradores aumentar por causa da pandemia. Pessoas que nunca participaram das ações passaram a procurar os gestores, pedindo para entrar no jogo.

Com a limitação do contato social físico, esses iniciantes ajudaram a movimentar plataformas digitais, criando sites para instituições de ação social, traduzindo conteúdos educativos para aulas on-line, escrevendo cartas e telefonando para idosos que moram em asilos, ou jogando games para obter créditos que são convertidos em doações.

A Fundação Telefônica Vivo recrutou voluntários para desenvolver websites e redes sociais para pequenas organizações e criar conteúdo para campanhas de captação de recursos. Em outra frente, funcionários aumentaram os acessos a uma plataforma digital chamada Game do Bem, que desafia o jogador a se envolver em missões com boas causas. O jogo teve um crescimento de 52% nas missões em março e abril, comparado aos meses pré-pandemia, segundo Americo Mattar, diretor presidente da organização. Cada 100 pontos ganhos no Game do Bem dão direito a R$ 100, que são convertidos em doações.

O programa de voluntariado da fundação teve mais de 19 mil participantes em 2019, organizados em 62 comitês espalhados por 48 cidades, segundo Mattar. “Estruturamos as ações possíveis, sem colocar ninguém em risco”, diz. Os voluntários também se dispuseram a telefonar e bater papo com os moradores da “Casa de Velhos Irmã Alice”, de Guarulhos (SP). Outros estão confeccionando máscaras por conta própria e entregando em instituições selecionadas.

“O isolamento social exige rever os padrões das operações, que agora precisam ser remotas. Os esforços das empresas têm convergido em fortalecer as ações de arrecadação de produtos e recursos financeiros para as comunidades mais vulneráveis”, afirma Ednei Fialho Lopes, membro do comitê gestor do Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial.

O CBVE reúne 15 empresas, que somam 26 mil voluntários de 12 segmentos produtivos. Segundo o conselho, a atuação das empresas se dá especialmente nas áreas de educação de qualidade, igualdade de gênero e redução das desigualdades.

“Nossos programas sempre foram mais vivenciais, in loco, nas comunidades carentes. Quando os funcionários vieram nos perguntar como poderiam ajudar, começamos a redirecionar os trabalhos para ações digitais”, afirma Fernanda Pires, diretora de pessoas, digital e sociedade da EDP no Brasil.

No primeiro trimestre a empresa do setor elétrico teve 184 voluntários e 1.650 horas dedicadas a projetos específicos de covid-19, um crescimento de 109% no número de pessoas engajadas em relação a igual período de 2019. A companhia considera o número de voluntários únicos, ou seja, se uma pessoa participou de cinco ações, sua participação é contabilizada apenas uma vez.

A empresa abriu um edital para escolher projetos de enfrentamento da pandemia em comunidades pobres de todo o país. A meta era destinar R$ 1 milhão para essas iniciativas, mas a procura foi tão grande que o valor foi duplicado, segundo Fernanda. “Os funcionários ajudaram a complementar os recursos para financiar esses projetos, doando, até esta semana, um total de R$ 469 mil”, afirma.

Foram selecionados 24 projetos, voltados à doação de alimentos e produtos de higiene e limpeza, que serão adquiridos por meio de um cartão alimentação. As doações, repassadas por meio do Instituto EDP, vão beneficiar diretamente cerca de 20 mil pessoas.

Outros voluntários passaram a enviar cartas a idosos e profissionais de saúde. Desde abril, foram enviadas 54 mensagens para velhinhos do Lar Torres de Melo, em Fortaleza (CE), do Recanto São João de Deus, em São José dos Campos (SP). Nem todos os esforços são feitos por canais eletrônicos. Na Sabesp, 600 voluntários se engajaram em 83 ações de arrecadação de alimentos e produtos de higiene no Estado de São Paulo, beneficiando 64 instituições. No total, eles conseguiram 35 toneladas de alimentos e 17 toneladas de kits de higiene. Os trabalhos estão alinhados aos programas Saneamento Solidário, da AESabesp, e Alimento Solidário, criado pela Secretaria de Desenvolvimento Social, com apoio do Fundo Social de São Paulo, Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Invest-SP.

Segundo Adriano Cândido Stringhini, diretor de gestão corporativa da Sabesp, os colaboradores têm saído a campo, nos fins de semana, em busca de doações. A empresa fornece equipamentos de proteção e orienta quanto aos padrões de segurança da OMS. “Na hora da entrega, conseguimos fazer com número reduzido de pessoas e há rodízio de voluntários.”

Desde o surgimento da pandemia, parte de profissionais da Camargo Corrêa Infra mobilizou-se via redes sociais para formar, já em março, o Grupo Voluntário de Apoio Comunitário - Covid-19. A equipe tem seis subgrupos temáticos e 45 voluntários para organizar os colaboradores e fortalecer as ações junto à rede de lideranças nas comunidades vulneráveis no entorno de suas obras. “Essas ações já beneficiaram cerca de 12.000 pessoas nas áreas onde atuamos”, diz o diretor executivo do Instituto Camargo Corrêa, Kalil Farran.

Segundo Farran, o programa tem dois focos principais: Comunidade Empreende, com iniciativas para ajudar o pequeno empreendedor; e Infra Digna, que presta serviços essenciais nas comunidades próximas às obras.

Entre outras iniciativas, o TakeAction, programa de voluntariado corporativo da Novo Nordisk, coordenou captação de R$ 84 mil para ajudar a Casa Hunter, ONG que apoia pacientes com doenças raras e está contratando pessoas de baixa renda para produzir aventais, toucas, protetores de calçados e máscaras descartáveis. Também levantou R$ 50 mil para produção de marmitas para ajudar a Associação das Mulheres de Paraisópolis (SP). A Vale criou em abril a plataforma Rede Voluntária Vale, que reúne e divulga ações solidárias de prevenção à disseminação da covid-19. Segundo a empresa, a rede surgiu para atender ao desejo crescente dos colaboradores de contribuir. O interessado entra no site e escolhe o projeto do qual quer participar.

Com 770 voluntários, o programa mobilizou, desde 14 de abril, 80 ações em 9 Estados. Foram arrecadados e distribuídos mais de 3.300 kits de alimentos e 3.300 kits de limpeza e higiene para mais de 3 mil famílias em situação de vulnerabilidade social em 43 municípios brasileiros.

Fonte: Valor Econômico