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Sem visitas, sem doações: pandemia agrava problemas enfrentados por ONGs

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Na ausência de políticas públicas abrangentes, as organizações da sociedade civil se articulam para amenizar os impactos da pandemia e do descaso público sobre a população

“A Providência era um lugar muito movimentado, né? Cheio de gente indo e vindo o tempo todo, muita alegria, muito orgulho de morar na primeira favela do país. Mas sempre teve o problema do desemprego e da fome, né? E a pandemia acabou com os empregos de muita gente… Fechou barraquinha de comida, fechou camelô, não tem mais bico, mais freelance, que são as coisas com que a população daqui trabalha, né?”

O desabafo é de Daniele Manhães. Monitora infantil em um colégio proximo do Morro da Providência, na cidade do Rio de Janeiro, onde mora, é voluntária na ONG Entre o Céu e a Favela. Além de organizar a papelada da fundação, ela é uma das beneficiárias dos cursos e atividades: as duas filhas, de 11 e 13 anos, participam das aulas de teatro e de perna de pau da fundação. Dos dois lados da bancada, Daniele presenciou as transformações que a pandemia causou na ECF.

Na ONG Ninho de Paz, que acolhe jovens e adultos com paralisia cerebral, 2020 foi igualmente difícil. A instituição é mantida há 36 anos por doações, não recebe nenhuma verba pública. E não parou durante a pandemia. Atualmente, vivem na instituição 12 pessoas com faixas-etárias entre 19 e 43 anos.

As visitas aos acolhidos foram suspensas. A equipe de voluntários foi afastada por tempo indeterminado. O chá beneficente que era realizado mensalmente foi suspenso. E o bazar, fechado por três meses. Sem os eventos, e com a recessão econômica, a Ninho da Paz viu uma queda brusca nas doações.

Essa tem sido a situação em organizações da sociedade civil (OSCs) por todo o país. Isso fica claro com os dados do estudo “Impacto da Covid-19 nas OSCs Brasileiras: da resposta imediata a resiliência”, realizado pela Mobiliza Consultoria.

Na pesquisa, 1.760 representantes de organizações de todas as regiões do país responderam a um formulário entre 17 e 31 maio de 2020. Do total de organizações respondentes, 87% relataram ter todas ou parte de suas atividades interrompidas ou suspensas por conta da crise; e 73% das OSCs relataram que a pandemia as enfraqueceu.

São nas lacunas do poder público que as ONG's atuam. Mesmo sem dinheiro do governo, essas organizações se sustentam com doações de pessoas físicas ou empresas privadas, que doam dinheiro ou insumos.

A pandemia do novo coronavírus trouxe consigo uma nova crise econômica. O desemprego e a queda da produtividade decorrentes das restrições de circulação para conter o vírus reduziram ou zeraram a renda de muitas pessoas. Entre elas, a dos doadores.

65% das OSCs ouvidas pelo levantamento previam a redução relativa ou significativa na sua captação de recursos até o fim de 2020, e 40% delas apontavam que tinham orçamento disponível para operar, no máximo, por mais 3 meses.

Sem trabalho, com fome

As dimensões continentais do Brasil e suas profundas desigualdades sociais tornaram os efeitos da pandemia heterogêneos. Enquanto as classes médias dos centros urbanos dispõe de serviços públicos funcionais e estabilidade econômica para manter seus estilos de vida durante os meses escassos da pandemia, as periferias padecem com a desassistência do governo e a insegurança financeira - onde uma semana sem trabalho pode significar uma semana de fome.

Essa diferença se traduz em números: a mortalidade causada pelo novo coronavírus é 60% maior em bairros pobres de São Paulo do que em bairros ricos, segundo um estudo de julho de 2020, feito pelo professor e epidemiologista Paulo Lotufo, da USP.

Por isso, muitas ONGs se viram na necessidade de estender sua atuação ou realizar ações emergenciais. A crise, entretanto, interrompeu seus financiamentos e atrasou suas atividades. Além do desafio de migrar para uma nova ferramenta (virtual), sem perder a qualidade de seu trabalho, muitas organizações atendem um público que não têm acesso à internet.

Foi o caso da fundação Entre o Céu e a Favela (ECF). Até março de 2020, a organização de Cintia Sant’Anna atuava no Morro da Providência com cursos de artes e atividades culturais.

“São coisas que não tem na favela, né? Eu mesma fiz cursos de empreendedorismo e de tranças na ONG, de graça. Se fosse pagar, eu não teria condição, e acho que ninguém da Providência teria também”, conta Manhães.

O início da pandemia, entretanto, fez os planos da ONG serem repensados. “Assim que decretaram o fechamento de tudo, ela [Cíntia] já reuniu os funcionários e nós começamos a pensar como reunir recursos para comprar cestas básicas”, relata Manhães, que além de beneficiária, também atua na administração da ONG.

Começou com uma campanha para resolver um problema de água na Pedra Lisa, uma região de alta vulnerabilidade no morro, e se estendeu por meses para atender aos moradores que pediam ajuda.

A ECF passou a fazer atendimentos às famílias da região portuária com distribuição de cestas básicas, kits de higiene, álcool gel, material de limpeza, entre outros itens recebidos em doações pontuais.

A nova fase de captação de recursos começou no boca a boca, diz Cíntia. Um conhecido falava para o outro, e aos poucos, mais pessoas tomavam conhecimento das necessidades da Providência. Pouco mais de um mês após o início do isolamento social, as doações para a ECF já tinham somado mais do que a organização arrecadara em meses.

Criaram um sistema de filas virtuais pelo WhatsApp e atendiam os moradores conforme as doações chegavam. Mais de 3000 famílias foram atendidas com cestas básicas e kits de higiene no morro da Providência. Dessas, 1700 com cartões alimentação com R$100,00 mensais durante três meses.

O decorrer da pandemia, entretanto, enfraqueceu as doações de pessoas físicas. A ECF suspendeu o cartão alimentação e reduziu as entregas de cestas básicas. Era hora de uma nova fase.

Educação

“2020 foi um ano perdido pras crianças, né? A prefeitura enviou as apostilas para as crianças fazerem os exercícios, e quem tinha celular assistia às aulas pela internet”, conta Daniele. Como suas filhas, de 11 e 13 anos, não têm acesso à rede, parte de seus dias era destinado à leitura e realização de exercícios entre a família.

“Infelizmente, não são todas as famílias que têm a disciplina das minhas filhas e o tempo que eu tenho disponível para sentar todo dia e fazer a lição de casa. E muitas mães da favela são analfabetas, como que elas vão ensinar uma coisa que elas não sabem?”

Em setembro do ano passado, a Entre o Céu e a Favela fechou uma parceria com outra organização da sociedade civil: a Criando Falcões. O novo projeto enviou 30 celulares para o morro da providência, de modo que as crianças sem acesso a internet pudessem assistir às aulas da rede municipal do Rio de Janeiro.

“Mas e as crianças que não participam de um projeto que nem esse? Passaram o ano todo por aí, né? Trancados em casa, jogando bola na rua ou sofrendo violência”, pondera.

No final das contas, o trabalho da ECF não será o mesmo depois da pandemia, diz Daniele. “Nossa intenção é atender a criança e a sua família de todas as maneiras possíveis. Com educação, com alimentação, com possibilidades. Não pra eles saírem da favela, a gente nasceu aqui, a gente ama isso aqui. Mas para fazer eles pararem de sofrer. Porque a vida aqui é isso, sofremos com falta de água, falta de luz, falta de saneamento, falta de alimento, falta de emprego, falta de direitos… E isso a gente só resolve investindo no futuro”.

Fonte: Brasil Econômico