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Um ano de covid e a filantropia estratégica

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*Priscila Pasqualin - FOTO: DIVULGAÇÃO

Há quase um ano tivemos notícia da pandemia e pudemos ver uma verdadeira corrida à Filantropia. De início, achamos que seriam poucos dias de isolamento, mas logo a pandemia mostrou o quanto estamos interconectados, o quanto somos igualmente vulneráveis e o quanto a desigualdade socioeconômica nos distancia nas chances de sobrevivência e condições de enfrentar o mesmo problema.

Ainda em março de 2020 o Monitor das Doações, lançado pela ABCR, computava R$ 475 milhões. Em abril escrevi sobre o legado da filantropia e como poderíamos responder aos desafios que se apresentavam. Hoje, chegamos à histórica marca de mais de R$6,5 bilhões doados.

Criativos como somos, com a empatia aflorada, pudemos ver uma série de iniciativas que uniram concorrentes, sociedade civil, instituições públicas e privadas no enfrentamento da crise, doando alimentos, equipamentos de saúde e de proteção, dando apoio emergencial a pequenos e médios negócios e muito investimento sendo feito em pesquisa, resultando no recorde absoluto de termos mais de uma vacina menos de um ano após a descoberta do vírus.

A filantropia se mostrou um ágil canal de resposta para fazer o alimento e os insumos de saúde e higiene chegarem à ponta que estava mais frágil, enquanto os governos se organizavam para responder à crise em larga escala. Além disso, exerceu o papel de articuladora e catalizadora de soluções mais complexas, voltadas para a pesquisa da vacina, para o desenvolvimento de respiradores, para o fomento à reinvenção de pequenos negócios para sobreviverem à crise. Mas, quando parecia que estávamos ultrapassando a pior fase desse maremoto, com a esperança da vacina, chegamos em dezembro com o crescimento brutal de internações graves e mortes, com as devastadoras notícias de Manaus asfixiando nossas forças para enfrentar a nova onda da pandemia e as graves consequências à economia, à saúde e à educação.

As doações não pararam, mas diminuíram em volume. Será que morremos na praia? Será que a filantropia está fadada a apenas enxugar gelo, sem conseguir contribuir com soluções e transformações reais? Não! Pudemos ver o quanto a doação emergencial é importante na travessia. No entanto, momento está a nos exigir mais. Este ano, durante o Fórum Econômico Mundial, online, prestei especial atenção ao painel “Avançando para um novo contrato social”, já que, como advogada, sei que precisamos construir as bases para isso, como coloquei em meu artigo nessa coluna sobre Blended Finance e desafios da realidade brasileira.

O resumo final do painel apontou para 5 principais pontos norteadores para esse avanço: soluções customizadas para mulheres, jovens, idosos, pessoas com diferentes habilidades, raças e etnias; novo mind set com relação à legislação trabalhista, educação, requalificação, saúde, recolocação profissional e proteção social, em especial por conta da nova economia impulsionada por tecnologia; novo mind set com relação à criação de empregos em setores como educação, cuidados com a saúde e tecnologia; novos tipos de incentivos governamentais, de criatividade, de uso do capital privado e de envolvimento profundo com as comunidades afetadas; e por fim, a necessidade deste trabalho ser nacional e também global.

Diversos painéis enfatizaram que a COLABORAÇÃO deve ser o novo modus operandi. E o que é necessário para isso? Ter objetivos similares, voltados a um bem maior do que os objetivos estritamente individuais das partes. Ter papeis bem definidos. Ter benefícios e ganhos recíprocos e para a coletividade. Ter todos esses pontos consensuados e contratados com transparência e mensuração, de forma a harmonizar os diferentes objetivos de cada parte contratante com aqueles que lhes são comuns e objeto da colaboração.

Para concretizar a colaboração entre os 3 setores – público, privado lucrativo e privado de interesse público – precisamos ter um ambiente regulatório seguro e que facilite sua interrelação, com arranjos contratuais e financeiros que harmonizem os interesses distintos de cada um dos setores em prol de um objetivo maior – o desenvolvimento econômico e a redução da desigualdade.

Felizmente, o que tenho testemunhado é um novo momento da filantropia, cada vez mais estratégica. Temos recebido famílias, empresários e instituições, públicas e privadas com o firme propósito de contribuir com seus recursos e com seu capital intelectual, seja para criar fundos patrimoniais, para investir seus recursos filantrópicos em iniciativas de médio e longo prazo, para ajudar de maneira sistêmica ou potencializar o papel inovador e articulador da filantropia, como elo entre diversos setores em prol do desenvolvimento de soluções para os enormes desafios gerados pela desigualdade, trazendo o mercado privado para essa conversa a buscar soluções que por ele possam ser absorvidas.

Talvez o legado mais importante da filantropia em tempos de pandemia tenha sido o despertar da consciência de que todos somos responsáveis e podemos contribuir de alguma forma para o enfrentamento desse e tantos outros problemas que ficaram escancarados em 2020, de forma suprapartidária. Precisamos agora consolidar esse novo patamar de colaboração.

*Priscila Pasqualin, sócia de PLKC Advogados, responsável pela área de Filantropia
e Investimento Social

Fonte: Estadão