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Empresas não buscam apenas o lucro, mas também o bem-estar social

not fundacao 03 12 2012Negócio social associa sustentabilidade com retorno financeiro.

Para alguns empreendedores, não basta ter lucro. É preciso ir além. Gananciosos? Muito pelo contrário. Muitos empreendedores descobriram que os ganhos de uma empresa podem ser redirecionados também para a conquista do bem-estar social de uma determinada comunidade. A mistura de geração de renda com sustentabilidade é o chamado negócio social, termo cunhado pelo economista e professor Muhammad Yunus, prêmio Nobel da Paz de 2006.

 O termo nasceu há cerca de 15 anos para explicar empreendimentos gerados para incluir a população de base da pirâmide, a grande massa de excluídos do capitalismo que não consome, que está fora do mercado ou fora da linha de produção. Ou seja, em um primeiro momento, negócios sociais eram empresas voltadas para produtos e serviços para este público.

 Mas o conceito não se limitou e acabou sendo ampliado e multiplicado. De acordo com a Nesst – organização catalisadora para empresas sociais em mercados em todo o mundo – uma empresa focada em negócio social pode visar o lucro, mas é preciso também gerar bem sociais. Segundo Renata Truzzi, diretora da Nesst no Brasil , o que se vê hoje é que existem várias definições porque é algo novo, um setor que não está definido. “É um conceito que está em formação. Aqui no Brasil, ele começou a ser explorado há mais ou menos 5 anos. No exterior, ele tem cerca de 15”, diz. De acordo com Renata, o negócio social não está somente do terceiro setor e nem no segundo. “Uma definição que funciona bem é dizer que é o setor dois e meio”, conta. Mais uma coisa é certa: esse tipo de empresa tem que prever geração de emprego para uma comunidade que não tem emprego, capacitação de trabalho, geração de renda em comunidade de pequenos produtores (artesãos, por exemplos).

 Em outubro, a Nesst Brasil ajudou a organizar o Fórum Mundial de Negócios Sociais 2012 no Rio de Janeiro, que reuniu especialistas na área de 30 países para promover e expandir o desenvolvimento de negócios sociais e investimentos de impacto no Brasil e no mundo. Ao longo do encontro, o grupo concluiu que é preciso fortalecer essas organizações e empresas para que sejam autossustentáveis, para dar retorno aos investidores, mas também à comunidade em forma de bem social. “O terceiro setor no Brasil é enorme. Agora ele tem que se gerenciar”, resume Renata sobre a conclusão do fórum.

 No Brasil, algumas organizações e empresas já exploram o conceito de negócio social, como um gerador de benefícios à comunidade onde estão instaladas. É o caso, por exemplo, da Neurônio, empresa que desenvolve metodologias para prêmios e concursos; além de organizar eventos. A empresa está no mercado há 12 anos e sempre buscou dar algum retorno à sociedade. “A Neurônio faz o link entre empreendedorismo e sustentabilidade há muitos anos. A gente sempre entendeu que o lucro da empresa não é o objetivo, mas o meio para atingir o bem-estar social”, explica Camila Figueiredo, sócia da Neurônio.

Confira abaixo exemplos de empresas que exploram o conceito de negócio social:

Mapinguari Design

 Em Belém, a Mapinguari Design é um escritório que atua em toda a região da Amazônia com foco no design estratégico e para a sustentabilidade. Seu diferencial está nas parcerias formadas com associações ribeirinhas e comunidades, e sua inclusão nos projetos. Para Sâmia Batista, uma das fundadoras da empresa, foi uma luta trabalhar a ideia de design em organizações do terceiro setor por eles desconhecerem o design como ferramenta. “Há uma visão compartimentada e simplista de que um sociólogo ou um biólogo pode fazer o que fazemos”, diz.

Para a Mapinguari não basta melhorar o produto, ensinar estratégias de comunicação e gestão ao terceiro setor da Amazônia. “Concluímos que uma parceria entre comunidade, associação e empresa de design permitiria fortalecer o processo. Assim, em todo projeto nosso, incluímos produtos desses parceiros, ampliando sua chance de inclusão no mercado”, conta.

 Sâmia e a sócia Fernanda Martins têm alguns princípios. “Evitamos trabalhar com empresas que utilizam práticas comerciais injustas e irresponsáveis”, explica Sâmia.

 A empresa tem no seu portfólio trabalhos feitos para a Rio+20, o fórum do Fundo Vale e o Fórum Social Mundial de 2009.

Neurônio/Sator

 Há 12 anos no mercado brasileiro, a Neurônio começou ainda na faculdade, quando um grupo de estudantes de Administração da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo montou o trote da cidadania como forma de engajar estudantes universitários às causas sociais, mas também mostrar que o terceiro setor e o voluntariado poderiam ser uma fonte de trabalho. Hoje em dia, Carla Figueiredo e o sócio Bruno Asp desenvolvem metodologias de prêmios e concursos para ativar a participação de empresários e estudantes. “A Neurônio faz o link entre empreendedorismo e sustentabilidade há muitos anos. A gente sempre entendeu que o lucro da empresa não é o objetivo, mas o meio para atingir o bem-estar social”, explica Camila Figueiredo, sócia da Neurônio.

Há 1 ano, os sócios se uniram à Sator Eventos, cuja especialidade é ser uma empresa de organização de eventos – feiras, seminários, congressos, workshops – para públicos altamente qualificados, e mídias impressas e online para fomentar os mercados desenvolvidos com uma visão inovadora. Juntos, procuram se unir a outras empresas ou organizações com o mesmo pensamento. Por isso, os eventos organizados costumam incluir parceiros comprometidos com atitudes que garantam o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e socioambiental. “Não somos uma empresa padrão de eventos”, afirma Camila. “A gente tem que engajar o maior número possível de empreendedores sociais. O princípio é engajar projetos sociais para gerar renda para eles terem a oportunidade de praticar o seu trabalho. É uma troca”, conta.

Vale Encantado

As montanhas do Alto da Boa Vista – que dividem o Rio de Janeiro em zonas norte, sul e oeste – escondem uma pequena comunidade que existe por lá há séculos, desde os tempos da plantação de café. É o Vale do Encantado, com cerca de 25 casas.

 Depois do café, houve a plantação de cana de açúcar, mas, como as monoculturas e a extração de madeira afetaram a qualidade da água, o imperador Dom Pedro II ordenou o reflorestamento da área.

 Mais adiante, muitas famílias se instalaram na região durante o período de extração de granito nas pedreiras. Porém, no início dos anos 1990, com a consciência ambiental cada vez mais forte e se fazendo presente, houve a interrupção dessa atividade.

 Com o fim da pedreira, ouve também o fim dos empregos e muitas famílias se mudaram. As que ficaram estavam sem trabalho. A falta de oportunidade e as preocupações com a preservação ambiental levaram a comunidade a buscar novas perspectivas de desenvolvimento social e econômico.

 Em 2005 nasceu o projeto de ecoturismo do Vale do Encantado. Com apoio da ONG francesa Abaquar/Paris e, mais adiante com o suporte da organização holandesa Porticus, os moradores se juntaram para montar uma cooperativa liderada por 20 habitantes. Eles oferecem turismo ecológico, com trilhas, e alimentação em um restaurante administrado pelos próprios moradores – e que também presta serviço de catering. “O objetivo é gerar renda para a comunidade. Os maridos iam para a pedreira trabalhar e as mulheres ficavam em casa. Com o fim da exploração do granito, era preciso gerar renda para essas famílias, em especial para as mulheres”, conta Otávio Alves Barros, um dos organizadores da cooperativa e guia turístico. Assim, o projeto incentiva o empreendedorismo social e promove o desenvolvimento sustentável.

O turismo no Vale Encantado pode ser feito em passeios que levam 1h, 2h30 ou entre 4h e 6h. O grupo percorre a comunidade, visita o que restou das pedreiras, confere a linda vista para a Barra da Tijuca e ainda passeia pela mata. Depois, é oferecido um almoço elaborado com as especialidades da região como  jaca, chuchu, taioba (uma folha, tipo espinafre). Tudo é feito a partir de alimentos que podem ser extraídos da mata ou são plantados nas hortas das casas dos moradores. “O que você imagina e não imagina que é possível fazer com o chuchu, a gente faz”, garante Otávio. No cardápio, geleia de chuchu, suco de chuchu com hortelã e o pudim de chuchu. O restaurante tem outra especialidade. É o “jacalhau”, prato parecido com o bacalhau, mas feito com a jaca. Há também a torta de umbigo de banana salgada.

Trilhas
 Leve: 1h. R$60, por pessoa (máximo de 25 pessoas)
 Média: 2h30. R$70, por pessoa (máximo de 15 pessoas)
 Pesada: 4h a 6h. R$90, por pessoa (máximo de 10 pessoas)
Todos os tipos de passeio incluem refeição

Fonte: Ação