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História da filantropia guarda paralelos com o momento atual e bilionários doam cada vez mais

not 01 07 2022 15
Foto: Adobe Stock | Licenciado

Por Edson Sakai

Em um dos meus artigos publicado pelo Observatório do Terceiro Setor, abordei o crescimento de fundos de investimento com contrapartida social como parte de uma tendência mais ampla de pessoas físicas que possuem um capital considerável, em destinar parte significativa de sua riqueza para ações que melhoram a vida de outras pessoas e o mundo.

Como disse no artigo, o tamanho dos desafios que estamos enfrentando no século 21 – das mudanças climáticas à crise da democracia, passando pela dificuldade em diminuir a desigualdade social, instabilidades políticas e econômicas que geram ondas de refugiados e imigrantes forçados, até pandemias como a Covid-19 – estão gerando cada vez mais pressão para gestores de fundos, herdeiros e líderes empresariais irem além do greenwashing e socialwashing e distribuírem a maior parte de seu patrimônio para ações de impacto socioambiental, com boa gestão e resultados mensuráveis.

Vivemos uma nova fase da filantropia, em que o próprio conceito é ressignificado e a cobrança por volume e efetividade só cresce. Mas, a origem da filantropia moderna ocorreu em um período não muito diferente do cenário atual, e vale a pena revisitar essa história para saber de onde viemos, onde estamos e responder à pergunta: para onde vamos?

Os pioneiros da filantropia: Andrew Carnegie e John D. Rockefeller

A filantropia moderna está intimamente ligada ao explosivo crescimento econômico causado pela Revolução Industrial em meados do século 19, que gerou grandes fortunas e também grande desigualdade, e a certos valores morais típicos dos Estados Unidos na época, que já emergia como grande potência econômica e industrial, posição que o país consolidou no século 20.

A primeira geração dos grandes industrialistas americanos foi em grande parte formada por self-made men, homens de origens humildes, muitos deles imigrantes, com espírito empreendedor, grandes ambições, mas um entendimento moral, geralmente de fundo religioso, de que o capital deve ser usado para ser investido na melhoria das condições de vida para todos, e não ser acumulado indefinidamente.

Andrew Carnegie, um dos pais da filantropia, se encaixa perfeitamente neste roteiro. Nascido em uma família escocesa pobre em 1835, com 13 anos emigrou com os pais e irmãos para os Estados Unidos, em busca de melhores condições de vida. O jovem logo conseguiu trabalho na crescente indústria da região de Pittsburgh, no estado da Pensilvânia, onde a família se estabeleceu.

Ele começou em uma indústria têxtil local, fazendo o pesado serviço de carregar e trocar as bobinas de algodão das máquinas, doze horas por dia, seis dias por semana. Foi “promovido” a um trabalho ainda mais penoso: alimentar a caldeira e cuidar do motor a vapor que impulsionava as máquinas. Finalmente, conseguiu uma vaga de mensageiro de telégrafo, e logo foi promovido a operador de telégrafo. Enquanto isso, buscava se educar lendo os 400 livros de um coronel que abria sua biblioteca particular para jovens operários aos sábados à noite. Em 1853, aos 18 anos, foi contratado pela Pennsylvania Railroad Company, uma das primeiras ferrovias dos EUA. Cresceu na hierarquia da empresa, virando superintendente regional, e começou a investir em novos negócios.

Carnegie foi lentamente acumulando capital e, após a Guerra Civil, investiu nos setores de petróleo e aço. Construiu um verdadeiro império na indústria siderúrgica, por meio de diversas inovações nos processos de produção e práticas comerciais agressivas. Na virada do século, vendeu sua empresa, a maior siderúrgica do mundo, para J.P. Morgan, maior banqueiro da época, criando a U.S. Steel Corp., tornou-se o homem mais rico dos EUA e se aposentou para dedicar-se exclusivamente às atividades filantrópicas, às quais se devotou até sua morte, em 1919.

Em 1870, Carnegie começou a investir em ações sociais, primeiramente em sua cidade natal, Dunfermline, na Escócia, e depois nos EUA, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia. Sua esposa, Louise Whitfield, foi grande incentivadora de suas ações filantrópicas. Lembrando da importância que o acesso à biblioteca do coronel teve em sua formação, seu principal foco foi a fundação de bibliotecas: no total, foram 2.509. Além delas, fundou escolas, faculdades, universidades, museus e uma rede de fundos e fundações que levam seu nome. Em 1911, o que restava de sua fortuna foi investido na Carnegie Corporation, dedicada “ao avanço e difusão do conhecimento”. Em 1889, escreveu “The Gospel of Wealth (O Evangelho da Riqueza)”, considerado o texto fundacional da filantropia. “O homem que morre rico, morre em desgraça” é uma das citações que entraram para a história.

John D. Rockefeller, conhecido como JD, nasceu no estado de Nova York em 1839. Seu pai era um caixeiro viajante, vendendo remédios por todos os EUA, e sua mãe era devota da Igreja Batista, o que exerceu grande influência na atividade filantrópica de JD. Aos 16 anos, ele foi contratado como contador de uma pequena empresa de Cleveland, Ohio. Abriu sua primeira empresa, de gêneros alimentícios, aos 20 anos, e cresceu durante o período da Guerra Civil, que coincidiu com a primeira “corrida do petróleo” nos EUA, devido ao aumento da demanda por querosene.

Assim, Rockefeller e seu sócio Maurice Clark abandonaram o setor de alimentos e investiram em uma refinaria. Ele foi pioneiro em aproveitar todos os subprodutos do petróleo, inclusive os que eram desprezados pelas outras refinarias, como a gasolina, óleo lubrificante, vaselina e parafina. Com o boom econômico pós-Guerra Civil, e a expansão para o Oeste, a demanda por derivados de petróleo explodiu e JD, por meio de uma estratégia de verticalização dos negócios, abarcando extração, refino e distribuição, formou a Standard Oil, tornando-se o homem mais rico dos EUA.

Já no seu primeiro emprego, Rockefeller, influenciado pela mãe religiosa, começou a doar um percentual de seu salário para ações filantrópicas da Igreja. Com o aumento da fortuna e do reconhecimento, ele foi “sufocado” por cada vez mais pedidos de ajuda, e decidiu profissionalizar suas ações filantrópicas. Firmou parceria com Frederick Gates, um pastor Batista e “gênio organizacional”, que organizou as ações filantrópicas de JD como se fossem uma empresa, e direcionou os recursos para ações mais amplas e de maior impacto. Desta forma, Rockefeller e Gates criaram o que conhecemos como filantropia moderna. JD também foi pioneiro em passar adiante para seus herdeiros a tradição filantrópica, que continua na família até hoje, por meio da Rockefeller Foundation e centenas de entidades afiliadas.

Doações em vida e em testamento crescem na atualidade

Carnegie e Rockefeller tinham a filantropia como um valor moral pessoal, mas eles se tornaram os maiores filantropos de sua época também devido a pressões sociais e culturais da sociedade norte-americana da segunda metade do século 19. Como disse, esse foi um período de grande expansão econômica, mas também de grande desigualdade e pobreza para grande parte da população, e a grande massa de operários das indústrias enfrentava duras condições de trabalho, longas jornadas e baixos salários.

Greves, movimentos trabalhistas e revoltas eram comuns, e a pressão levou o governo dos EUA a quebrar grandes monopólios como os da Standard Oil e da U.S. Steel e taxar pesadamente as grandes fortunas. A filantropia foi uma maneira de os grandes industriais da época terem algum controle sobre a redistribuição de seu patrimônio. Outros, sem a veia filantropa de Carnegie e Rockefeller, foram praticamente forçados a isso. Seu investimento em ações de saúde, educação, nutrição, cultura e muitas outras, foi fundamental para tornar os EUA não apenas uma potência econômica, mas também científica e cultural.

Vivemos uma época com muitos paralelos com a chamada “Era Dourada” (Gilded Age) do final do século 19, com a desigualdade em alta e crise no mercado de trabalho, acrescidos do grande desafio contemporâneo: a necessidade de preservação ambiental para conter as mudanças climáticas. A pressão sobre os bilionários, grandes empresários e CEOs e herdeiros de grandes fortunas também está levando muitos a destinarem seus recursos à filantropia.

Bill Gates e Warren Buffett são grandes expoentes dessa filantropia contemporânea, e inspiram muitos outros. Mas Gates e Buffett citam como inspiração Chuck Fenney, fundador da Duty Free, que durante a vida doou mais de US$ 8 bilhões para diversas fundações, fundos de caridade e universidades. Agora, aos 89 anos, ele vive em um apartamento modesto em São Francisco com a esposa, e manteve apenas uma reserva de US$ 2 milhões para viver a aposentadoria. Sem mais nada para doar, ele encerrou recentemente sua empresa de filantropia, a Atlantic Philantropies.

Nos EUA, a cultura de filantropia está estabelecida e é favorecida pela legislação, em especial a tributária, que facilita as doações removendo burocracias. No Brasil, a situação ainda é muito diferente. Quando, por exemplo, houve o incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 2018, muitos se perguntaram por que os ricos brasileiros não doavam para manter o acervo do museu em segurança. Foi revelado que havia a intenção de doar, mas a burocracia praticamente impede doações de chegarem ao seu destino. Felizmente, isso está mudando.

Um exemplo é a iniciativa Legado Solidário, do CNB/SP (Colégio Notarial do Brasil – Seção São Paulo), associação que reúne os cartórios de notas, em parceria com diversas instituições, como o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), o Instituto Ayrton Senna, o GRAAC (Grupo de Apoio ao Adolescente e Criança com Câncer) e a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). A ação estimula testamentos públicos em que pessoas legalmente podem destinar parte de seus recursos a instituições de caridades após a morte. Em 2019, primeiro ano da iniciativa, quatro testamentos foram protocolados. Em 2020, com a pandemia, o número já cresceu 450%, para 18.

Ainda há muito a ser feito, mas a própria ideia de filantropia evoluiu muito desde os tempos de Carnegie e Rockefeller. Naquela época, os magnatas da indústria desconfiavam do governo como fornecedor de saúde e educação e agiam para combater os impostos e as legislações ambiental e trabalhista. Os bilionários da atualidade entendem que devem trabalhar em parceria com governos e entidades da sociedade civil e fazer sua parte também em suas empresas. Tenho certeza de que essa tendência seguirá crescendo, aqui no Brasil e no mundo. Afinal, como dizia Carnegie, “o homem que morre rico, morre em desgraça”.

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Sobre o autor: Edmond Sakai é diretor regional da Sede Mundial da ONG internacional médica Operation Smile. É advogado e professor universitário. É mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo e mestre em Administração de ONGs pela Washington University in St. Louis, EUA. Foi professor de Direito Internacional na UNESP, professor de Gestão do Terceiro Setor na FGV-SP e Representante da Junior Chamber International na ONU. Recebeu Voto de Júbilo da Câmara Municipal de São Paulo.

Fonte: Observatório 3º Setor