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Doação com propósito: plataforma estimula filantropia individual conectando ONGs a doadores

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Carolina Botelho e Inês Lafer comandam a iniciativa Confluentes para facilitar doação de pessoas físicas Foto: Mario Ladeira

Em dois anos e meio, projeto que estrutura e monitora doações já distribuiu mais de R$ 750 mil a ONGs

Imagine ter a vontade de fazer uma boa ação, ter o recurso, mas não saber para quem, onde ou como doar. Foi com esse objetivo de ser a ponte entre organizações e doadores que nasceu o Confluentes, em novembro de 2019. A plataforma visa potencializar a filantropia individual, aliando transparência, gestão e criando uma rede entre os que querem fazer uma boa ação. "Tem muita gente querendo que o País melhore, incomodado com a situação política e do meio ambiente, que quer ser protagonista na mudança, mas não sabe como", afirmou a idealizadora do Confluentes, Inês Lafer, sobre a origem do projeto.

Em dois anos e meio de projeto, foram arrecadados mais de R$ 750 mil, distribuídos igualmente entre dez Organizações Não Governamentais (ONGs). A missão da iniciativa é acompanhar de perto o resultado do capital investido, recebido somente de pessoas físicas. "Faltava um espaço estruturado de uma doação, que é um pouco maior do que essa que te pedem na saída do metrô. Um valor estruturado, com uma doação estruturada por meio de um veículo, para apoiar organizações que sei que tem alguém olhando para esse dinheiro", disse Inês, também diretora do Instituto Betty e Jacob Lafer.

Uma das ONGs apoiadas atualmente é a Kanindé, uma associação que luta pela defesa da Amazônia, sobretudo em Rondônia, e do povo indígena uru-eu-wau-wau. Ela começou a receber o aporte financeiro este ano e já sente os efeitos do investimento. "O apoio deles fez minha voz ir mais longe, furar a bolha. Não ser uma voz só ouvida por um milhão e meio de pessoas que vivem em Rondônia", contou a fundadora e coordenadora-geral do Kanindé, Ivaneide Bandeira, de Nova York.

Ela, que também é indigenista, está em turnê em mais de 130 países para o lançamento do filme O Território, que fala da luta desses povos contra o desmatamento na floresta. "Eles viabilizam o que ninguém viabiliza: a oportunidade de poder colocar tua voz para que outros escutem. Tiram da invisibilidade", destacou.

A captação dos recursos é feita a partir de uma espécie de clube de assinatura anual, a partir de R$ 5 mil, podendo ser parcelada em até 12 vezes sem juros no cartão de crédito. Esse montante, além de ajudar quem recebe, dá acesso a diversos benefícios para quem doa. A depender do "plano" escolhido, é possível ir a eventos com líderes sociais, acadêmicos e políticos; participar de conversas com artistas, cineastas e escritores; além de ter acesso a um clube do livro, newsletter, podcast e até desconto na Companhia das Letras.

Hoje, participam 66 confluentes (como são chamados os doadores). "Ao fazer sua doação, a pessoa automaticamente já é convidada para participar dos encontros, do clube do livro, além do grupo de WhatsApp no qual os confluentes se conectam e formam uma rede de transformação", disse a gestora do Confluentes, Carolina Botelho. Dentre os que já passaram por lá estão a ex-ministra Marina Silva, o delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva e o cineasta Fernando Meirelles.

Os principais doadores, de acordo com a gestora, são mulheres e da classe A, que ganham mais de R$ 20 mil. Dentre as profissões que mais doam estão os advogados. "O projeto veio para quem quer fazer uma doação mais estruturada, pensando numa transformação a longo prazo", afirmou Carolina. É possível acompanhar de perto e com detalhes o impacto gerado. "Todo fim de ano, enviamos um relatório final aos doadores, composto dos números de pessoas atingidas em cada organização, além de histórias de pessoas diretamente impactadas, por meio de entrevista e vídeos", disse a gestora.

As causas das ONGs assistidas pela iniciativa vão desde a preservação ambiental, combate ao racismo e à desigualdade social, proteção da população LGBT+, fortalecimento da democracia, dentre outros. Este ano, as três instituições que receberão recursos, além da Kanindé, é a Redes Cordiais, um projeto de educação midiática e de combate à desinformação, e a Odara Instituto Mulher Negra, que atua em defesa da equidade racial e de gênero. Todos os anos, as organizações apoiadas são trocadas, para "aproximar os confluentes de mais causas".

A realização do Confluentes é feita pelo Instituto Betty e Jacob Lafer, que desde 2011 financia projetos da sociedade civil na inovação de políticas públicas. O apoio institucional é feito por grupos filantrópicos nacionais e internacionais, como a OAK Foundation e a Fundação Tide Setubal.

Fonte: Terra