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O voo solidário

not fundacao 28 1 2013 2País está em nono lugar no ranking de voluntários no mundo. E, na corrida por recursos e doadores, o terceiro setor brasileiro se profissionaliza


ESTRATÉGIA
Eduardo Queiroz, diretor de uma fundação, aplica no terceiro
setor a experiência que adquiriu no mercado financeiro


Ajudar o próximo faz parte da vida de Simone Batista, 46 anos, desde a infância. Ainda criança, ela participava das campanhas da igreja que frequentava. Logo passou ao grupo de jovens e amadureceu sua vocação para o trabalho social ao longo dos anos de faculdade. Mesmo com tanta experiência, a doutora em pedagogia não hesitou em passar por um curso de formação de dois meses antes de entrar para a equipe de voluntários do Instituto Elos, uma ONG com sede na cidade de Santos, em São Paulo, que aposta na profissionalização do trabalho social. “No curso, a gente aprende a estabelecer um diálogo com a comunidade e a identificar suas necessidades”, afirma ela. “Se o trabalho é assistencialista, a gente faz pelas pessoas, e não junto com elas.”

Pesquisas que aos poucos jogam luz no terceiro setor mostram que a história de Simone exemplifica uma das mais importantes tendências para o mercado da solidariedade no Brasil: profissionalismo, transparência, estratégia e avaliação de impacto, velhos conhecidos do mundo empresarial, estão entrando na rotina das ONGs. Segundo Anna Peliano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que liderou o levantamento “Fundações Privadas e Associações Sem Fins Lucrativos no Brasil”, publicado em dezembro de 2012, percebe-se um aumento no número de trabalhadores formais, na qualificação e na remuneração. Das pessoas empregadas no setor, 33% possuem nível superior, enquanto nas demais instituições e empresas esse índice é de 16,6%”, diz.

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EXPERIÊNCIA
Simone Batista (à esq.) passou por curso prático antes de se tornar voluntária

Em algumas organizações de grande porte, essas condições são ainda mais evidentes, como é o caso da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV), que trabalha com a primeira infância. Ela é dirigida por Eduardo Queiroz, 42 anos, empresário que em 2001 deixou o mercado financeiro para trabalhar em uma ONG. “Foi um choque”, afirma Queiroz. “Você chega a uma organização pequena com o dinamismo de um banco de investimento e vê que o ritmo é outro.” O executivo diz que hoje 60% dos funcionários da FMCSV possuem pós-graduação e que todos os contratados precisam ter um bom nível de inglês. “A profissionalização do setor é uma tendência e responde a doadores cada vez mais exigentes.” A tese é reiterada pelas organizações que prestam consultoria para investidores sociais. “Os doadores estão procurando impacto, querem saber o que realmente mudou com os projetos”, diz Marcos Kisil, diretor do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social.

Se por um lado essa mudança de postura de doadores privados e organizações atende a uma antiga demanda por mais transparência no setor, por outro ameaça deixar pelo meio do caminho as pequenas e médias organizações, que têm estrutura limitada. “Ainda há uma desconfiança grande da elite, que é quem tem dinheiro, com relação aos movimentos sociais e às ONGs”, afirma Fernando Rossetti, diretor do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas. Para a professora Joana Coutinho, do Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a cobrança deve ser a mesma por parte do governo federal, que repassou R$ 3,2 bilhões para essas organizações entre 2011 e 2012, segundo dados do Ministério do Planejamento. Para a professora, o Estado não pode se eximir de sua responsabilidade ao repassar verbas para determinados projetos. “Mesmo no caso das contribuições privadas, é ele quem deixa de arrecadar por conta dos incentivos fiscais.”

Essa questão deve ficar mais evidente nos próximos meses. A presidenta Dilma Rouseff tem em mãos um projeto de lei que visa regular os repasses do governo para o terceiro setor. Para Raimundo de Oliveira, membro executivo da Associação Brasileira de ONGs, um dos principais avanços do documento é permitir que os recursos públicos possam ser usados na remuneração dos funcionários fixos das organizações. Para o professor Luiz Carlos Merege, fundador do Instituto de Administração para o Terceiro Setor, a regulação significaria um passo importante para garantir o profissionalismo das organizações e a confiança dos doadores. “No fim das contas, o único capital que temos são os valores e princípios que defendemos.”

Fotos: Rafael Hupsel/Ag Istoé; Paulo Pereira
Fonte: Istoé