Notícias das Associadas
FMCSV - OCDE libera resultados inéditos do Brasil no IELS, estudo internacional sobre aprendizagem e bem-estar na primeira infância
- Detalhes
- Criado em 08/05/2026

Foto: Divulgação/FMCSV
Realizado no país por uma coalizão liderada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, o estudo mediu o desenvolvimento de crianças em literacia e numeracia emergentes, funções executivas e habilidades socioemocionais em três estados
O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância (International Early Learning and Child Well-being Study – IELS) divulga dados inéditos sobre o desenvolvimento de crianças brasileiras de 5 anos matriculadas na pré-escola.
A partir de um processo lúdico, a pesquisa olha para três áreas de desenvolvimento: aprendizagens fundamentais (literacia e numeracia emergentes), funções executivas (memória de trabalho, flexibilidade mental e controle inibitório) e habilidades socioemocionais (empatia – identificação e atribuição de emoções -, confiança, comportamento pró-social e comportamento não disruptivo).
Desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e viabilizado no país por uma coalizão liderada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, o estudo traz também a percepção das famílias e dos professores sobre o desenvolvimento das crianças. O Brasil foi o único país da América Latina a participar da pesquisa.
Os resultados indicam aprendizagem dentro da média internacional em três domínios: literacia emergente e duas medidas de empatia: identificação e atribuição das emoções. A pontuação em literacia foi a mais alta dentro da amostra brasileira e apresentou uma das menores dispersões em crianças de nível socioeconômico diferentes (NSE), entre os países participantes.
Uma das hipóteses para esse resultado positivo está na ênfase conferida à temática pelas políticas públicas mais recentes. Por outro lado, os resultados no Brasil ficaram abaixo da média internacional em numeracia, onde foi observado maior desigualdades entre as crianças, o que ocorreu também em funções executivas.
ACESSE OS RESULTADOS DO IELS NO BRASIL AQUI.
Desigualdades socioeconômicas produziram diferenças em todas as dimensões, principalmente nos domínios de memória de trabalho e numeracia. O estudo também revelou que, embora menores, as desigualdades étnico-raciais já estão presentes desde a pré-escola. Crianças pretas, de famílias beneficiárias do Bolsa Família e de NSE mais baixo são as que tiveram menor pontuação em quase todos os domínios pesquisados.
Os dados expõem, também, desafios nas rotinas e no ambiente de aprendizagem em casa, mesmo em famílias de níveis socioeconômicos mais altos. Mais da metade das famílias (53%) relatou não realizar leitura para as crianças ou fazê-lo nunca ou menos de uma vez por semana. Os dados comparativos internacionais também reforçam essas diferenças: 54% das famílias participantes do estudo relataram ler para as crianças no mínimo 3 vezes por semana; no Brasil, esse número cai para 14%.
“Esses achados mostram que os desafios de aprendizagem já se revelam na pré-escola. Além disso, as desigualdades socioeconômicas, de gênero e étnico-raciais aparecem na primeira infância, por isso, precisamos agir desde o começo da vida e olhar para as diferentes dimensões da criança”, afirma Marina Chicaro Fragata, diretora de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. “O desenvolvimento infantil não é responsabilidade isolada das escolas ou das famílias, mas resultado de um conjunto de condições, oportunidades e políticas que precisam ser priorizadas, articuladas e bem implementadas com foco nos bebês, crianças pequenas e seus cuidadores”, finaliza.
No Brasil, o estudo foi coordenado pelos pesquisadores Mariane Koslinski e Tiago Bartholo, do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE/UFRJ). Os dados foram coletados com a participação de 2.598 crianças, distribuídas em 210 escolas – 80% públicas e 20% privadas -, localizadas em três estados brasileiros: Ceará, Pará e São Paulo. A amostra é representativa para os três estados e contou com alta taxa de adesão dos municípios, escolas, professoras, responsáveis e crianças.
OS PRINCIPAIS RESULTADOS DO IELS NO BRASIL
A média internacional (500 pontos) apresentada ao longo do estudo é utilizada como referência para apoiar o debate. Os resultados não devem ser usados para fins de ranqueamento, uma vez que as amostras de cada país foram constituídas de formas distintas, em contextos específicos e são representativas apenas dos territórios participantes (jurisdições). No caso do Brasil, a amostra é representativa para cada um dos três estados participantes.
Aprendizagens fundamentais
Neste domínio concentram-se os melhores resultados, em literacia, e também o mais baixo, em numeracia.
> Literacia emergente: Apresentou uma pontuação média de 502 pontos, situando-se ligeiramente acima da média internacional. Neste domínio, houve pouca variação de resultados entre níveis socioeconômicos diferentes.
> Numeracia emergente: É o principal ponto de atenção, com média de 456 pontos, valor substancialmente inferior à média internacional (-44 pontos). Diferentemente da literacia, a variação de resultados é maior, o que indica a coexistência de crianças com níveis muito distintos de domínio dessas habilidades. Enquanto 80% das crianças de NSE alto dominam o reconhecimento de numerais, esse índice cai para 68% entre as de NSE baixo.
Habilidades socioemocionais
Os domínios relacionados à empatia apresentaram as pontuações mais elevadas em relação à média internacional, com 501 pontos em atribuição de emoções e 491 pontos em identificação de emoções.
Funções executivas
A memória de trabalho (capacidade de armazenar e manipular informações) destaca-se como a mais afetada pelo nível socioeconômico (NSE), com diferença de 39 pontos entre crianças de NSE alto e baixo, uma disparidade considerada alta. As médias brasileiras nos três domínios (memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade mental) situam-se abaixo da média internacional, com diferenças classificadas como moderadas a grandes e estatisticamente significativas.
Ambiente de aprendizagem em casa
> A leitura de livros ocorre com menor frequência: 53% das famílias nunca ou raramente realizam estas atividades. Enquanto apenas 14% dos responsáveis brasileiros realizam essa atividade entre 3 e 7 vezes por semana, a média internacional é de 54%
> A realização de atividades ao ar livre – como caminhadas, brincadeiras livres e outras opções de lazer – é frequente para apenas 37% das famílias, abaixo da média de 46% nos países participantes do IELS
> Mais da metade das famílias (56%) relata que conversa com as crianças sobre como elas se sentem entre 3 e 7 dias por semana. Embora seja a prática mais comum relatada pelos responsáveis brasileiros, as conversas ocorrem com menor frequência do que na média internacional, que chega a 76%
> Responsáveis e cuidadores relatam que 50,4% das crianças utilizam dispositivos digitais em casa todos os dias – acima da média internacional (46%). Os resultados indicam que o uso diário de tela está associado a níveis mais baixos de aprendizagem, especialmente em literacia e numeracia emergentes. Embora não seja possível estabelecer relação de causa e efeito, os dados reforçam a importância do uso mediado e equilibrado
O Brasil é o único país que trouxe os resultados com o recorte racial e seu impacto na aprendizagem e no bem-estar das crianças. Os resultados evidenciam que as diferentes dimensões das desigualdades, como gênero, raça e nível socioeconômico, são cumulativas. Meninos, pretos, pardos e indígenas e de menor nível socioeconômico enfrentam maiores dificuldades em diferentes domínios.
“O estudo mostra que as desigualdades de aprendizagem começam muito antes do ensino fundamental. Aos 5 anos, já observamos diferenças importantes associadas às condições sociais das crianças e ao seu contexto de vida. Um dos achados mais importantes do estudo é que as desigualdades não atuam isoladamente — elas se acumulam. Quando diferentes fatores sociais e econômicos se combinam, as diferenças de aprendizagem se ampliam de forma significativa, o que reforça a necessidade de políticas mais integradas desde a primeira infância”, alerta Tiago Bartholo, doutor em educação e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).“
O IELS chega ao Brasil em um momento importante para a primeira infância no país. Nos últimos anos, avançaram iniciativas como a Política Nacional Integrada da Primeira Infância (PNIPI), o novo Plano Nacional de Educação (PNE), o Compromisso Criança Alfabetizada e o fortalecimento de políticas voltadas à educação infantil — como a atualização dos Parâmetros Nacionais de Qualidade e Equidade para a Educação Infantil, o Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade para a Educação Infantil (Conaquei) e a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Amostra e metodologia
No Brasil, o estudo foi realizado nos estados do Ceará, Pará e São Paulo, seguindo cinco fases principais: adesão (2022), adaptação cultural e aprovação ética (2023), pré-teste e treinamento (2024), coleta de dados (2025) e análise com divulgação (2026). Os pesquisadores treinados visitaram as escolas; cada criança realizou quatro atividades curtas (até 15 minutos cada) em tablets com áudios pré-gravados, de forma lúdica e adaptativa (as perguntas se ajustavam ao nível de resposta da criança) para garantir uma experiência acolhedora. Professores, pais ou responsáveis preencheram questionários com informações sobre cada criança, que compuseram a avaliação.
Sobre o IELS
O IELS foi desenvolvido pela OCDE em meados da década de 2010, surgindo da necessidade de países disporem de dados comparáveis sobre a primeira infância. A primeira aplicação oficial ocorreu em 2018, envolvendo a Inglaterra (Reino Unido), a Estônia e os Estados Unidos. Atualmente, o estudo está em seu segundo ciclo (IELS 2025), que expandiu o alcance geográfico para incluir o Brasil, Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda e Malta, além da permanência da Inglaterra. No Brasil, o estudo é apoiado por um consórcio de instituições, liderado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que inclui B3 Social, Colibri Capital, Fundação Lemann, Fundação Lia Maria Aguiar, Instituto Beja, Instituto Tecendo Infâncias, Itaú Social, Perfin Wealth Management e Serviço Social da Indústria (Sesi).
Acesse o estudo completo da OCDE aqui.
Fonte: Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

